Partido solicita apuração a respeito de apoio externo à candidatura bolsonarista; em outra frente no TSE, coligação de Lula requer cassação da chapa da extrema direita. Fotos: Divulgação Flávio Bolsonaro / Reprodução rede X
O Partido dos Trabalhadores pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) medidas urgentes para investigar se pressões políticas, recursos e operações digitais vindos do exterior estão sendo utilizados para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Em manifestação dirigida ao ministro Flávio Dino, o partido solicita a abertura de inquérito pela Polícia Federal e o reforço das regras que impedem a execução, no Brasil, de imposições estrangeiras sem respaldo na legislação nacional.
A petição, enviada nesta quarta-feira, 23, reúne diferentes frentes de apuração: possíveis aportes de uma organização ligada à direita norte-americana, conteúdos fornecidos à estrutura partidária do PL e publicações pagas de perfis no exterior que promovem o candidato. O objetivo é identificar quem financiou essas iniciativas, quais serviços foram prestados e quem se beneficiou delas.
O pedido foi apresentado no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1.178. Nesse processo, Dino decidiu, em agosto de 2025, que atos unilaterais de outros países não podem impor obrigações ou restrições no território brasileiro fora das hipóteses admitidas pelo ordenamento nacional. A intenção é que essa proteção seja explicitada também para as eleições, inclusive em relação à atuação de plataformas digitais e instituições financeiras.
A manifestação busca impedir que decisões de governos estrangeiros sejam executadas no país para interferir na disputa e esclarecer eventuais formas de financiamento externo proibido. O partido também pede ingresso no processo como colaborador do tribunal, condição conhecida como “amicus curiae”.
A argumentação relaciona sanções contra autoridades brasileiras, pressões comerciais e iniciativas para desacreditar o sistema eleitoral. É necessário investigar se medidas dessa natureza foram executadas no Brasil em descumprimento da decisão do Supremo e utilizadas para desequilibrar a corrida presidencial.
Conteúdos com pagamento sob suspeita
Uma das frentes envolve a Rockbridge Network, rede norte-americana de articulação política que tem entre seus cofundadores J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos. A manifestação retoma suspeitas de apoio à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e pede esclarecimentos sobre a participação dos empresários Tallis Gomes, Pedro Sang e André Marinho.
O PT solicita documentos, registros de reuniões e informações sobre eventuais recursos ou serviços destinados à candidatura. Também quer que Renan Santos e Arthur do Val, responsáveis por acusações públicas sobre o assunto, sejam ouvidos e apresentem os elementos que afirmam possuir.
Outra frente trata da oferta de documentários e cursos do Brasil Paralelo e do Estúdio Quinto Elemento na Academia da Direita, plataforma ligada ao PL e ao Instituto Álvaro Valle, fundação do partido. Segundo o levantamento citado na manifestação, foram identificados ao menos oito documentários do Brasil Paralelo e três produções do Quinto Elemento sem registro correspondente de contratação, despesa ou pagamento nas prestações de contas examinadas.
A questão é simples: materiais comercializados pelos fornecedores aparecem gratuitamente na plataforma partidária. Para o PT, isso aponta para uma possível doação de bens ou serviços com valor econômico, cuja origem e forma de custeio precisam ser esclarecidas.
No caso do Quinto Elemento, o documento descreve uma cadeia societária que liga as brasileiras Patrística Brasil e Produções 5 Elemento às empresas estrangeiras Patristica Invest LLC e Zeitgeist MKM Corp. A hipótese é que as sociedades nacionais tenham intermediado recursos ou serviços pagos pelas controladoras no exterior.
O partido pede a análise dos registros contábeis e financeiros. Também questiona o uso da fundação, mantida com recursos públicos destinados à pesquisa e à educação política, na divulgação de materiais de promoção de Flávio e ataque ao presidente Lula.
Apostas apresentadas como preferência eleitoral
A manifestação também destaca publicações de ao menos 11 perfis no X que, entre 18 e 21 de setembro, divulgaram conteúdos pagos sobre a alta de Flávio Bolsonaro nas apostas da Polymarket. Segundo a documentação citada, os posts exibiam o selo de “Parceria paga”, mas não identificavam o responsável pelo financiamento.
Cotações de apostas foram utilizadas para construir uma percepção de favoritismo eleitoral. A petição explica que esses números não equivalem a pesquisas de intenção de voto: não representam uma amostra do eleitorado brasileiro nem seguem os critérios de um levantamento eleitoral.
O PT pede a identificação dos contratantes e pagadores, dos valores envolvidos e do alcance das publicações no Brasil.
A origem do dinheiro é decisiva para a apuração. A proibição de financiamento estrangeiro alcança não apenas transferências bancárias, mas também publicidade, serviços e outras vantagens que possam ser avaliadas em dinheiro, quando comprovadas sua procedência e destinação eleitoral.
O que o PT quer que seja investigado
Além da abertura de inquérito pela PF, o partido solicita a preservação imediata de arquivos, contratos, comprovantes de pagamento e registros digitais. Pede ainda depoimentos, análise contábil da documentação da campanha e do partido e cooperação internacional quando necessária para rastrear operações.
“Em todas as frentes narradas repete-se a mesma pergunta: quem custeia, por qual instrumento jurídico, em benefício de qual candidatura e por que a vantagem não consta da contabilidade submetida à Justiça Eleitoral”, afirma o documento.
A manifestação prevê que buscas e apreensões e quebras de sigilo sejam avaliadas mediante pedidos específicos da polícia ou do Ministério Público e demonstração dos requisitos legais. Entre os locais mencionados estão o comitê de Flávio Bolsonaro e a sede nacional do PL. Caso seja comprovada a existência de um fluxo ilícito ainda em curso, o partido pede a interrupção das operações e o bloqueio dos valores identificados.
Se Dino entender que a abertura da investigação depende de iniciativa do Ministério Público, o PT solicita o encaminhamento imediato dos elementos à Procuradoria-Geral da República. A urgência é justificada pela proximidade da votação e pela necessidade de preservar registros indispensáveis à apuração.
Pedido de cassação da chapa de Flávio Bolsonaro
A Coligação Brasil Pronto Pra Mais também apresenta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Flávio Bolsonaro, seu candidato a vice, Alfredo Gaspar, e Eduardo Bolsonaro. A iniciativa pede apuração de abuso de poder econômico e político e uso indevido dos meios de comunicação relacionados à interferência estrangeira na disputa.
Segundo a coligação, articulações de Flávio e Eduardo com autoridades norte-americanas transformaram sanções, barreiras comerciais e ataques à credibilidade das urnas em instrumentos para desgastar o governo Lula e favorecer a candidatura do PL.
A ação também pede esclarecimentos sobre as conexões da Rockbridge Network com a campanha e um estudo atribuído a André Marinho sobre minerais críticos e terras raras. A suspeita é de oferta de vantagens sobre o patrimônio mineral brasileiro em troca de apoio eleitoral.
Entre as diligências solicitadas estão depoimentos, registros de encontros e despesas, contratos e preservação de dados digitais. Quebras de sigilo fiscal e bancário dependeriam de indícios individualizados obtidos na apuração.
Se os abusos forem reconhecidos, a coligação pede a cassação dos registros ou diplomas de Flávio e Alfredo Gaspar e a inelegibilidade de Flávio e Eduardo por oito anos. Essas punições são solicitadas à Justiça Eleitoral e não integram a manifestação dirigida a Dino no STF.








