Luiz Eduardo Soares alerta para o risco de expansão nacional do poder das milícias. Foto: Adriano de Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, e coordenador do Escritório do Crime foi homenageado por Flávio Bolsonaro/Reprodução
O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, um dos principais pesquisadores brasileiros de segurança pública, fez um alerta sobre o avanço das milícias diante do atual cenário político nacional.
Ex-coordenador de Segurança Pública do governo do Rio de Janeiro, Soares relembrou sua passagem pela administração estadual, entre 1999 e 2000, período em que defendeu mudanças nas polícias e denunciou a existência de uma “banda podre” dentro das corporações. Segundo ele, o fracasso em enfrentar o crime infiltrado nas instituições policiais ajudou a criar as condições para o fortalecimento posterior das milícias no estado.
“Antes de sair, eu disse que se a gente não enfrentasse o crime dentro das polícias, as milícias se fortaleceriam, por fora e por dentro das instituições do Estado, e levariam o Rio pro fundo do poço. Infelizmente, a previsão estava certa”, afirmou.
Um país enfraquecido
No alerta divulgado agora, o antropólogo dirige suas críticas à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e questiona o interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na eleição brasileira.
Soares sustenta que as autoridades norte-americanas conhecem as acusações e investigações que ao longo dos anos envolveram pessoas próximas a Flávio Bolsonaro e integrantes de milícias do Rio de Janeiro. A partir disso, apresenta sua própria interpretação para o interesse do governo Trump na disputa brasileira.
“Por que vocês acham que o presidente dos Estados Unidos está tão empenhado na eleição de Flavio Bolsonaro? Vocês acham que Trump não sabe quem é Flavio? Os EUA são o país mais poderoso do mundo, têm o mais poderoso serviço de inteligência. Eles sabem exatamente quais são os vínculos de Flavio com as milícias. Então, por que tanto interesse do governo dos Estados Unidos na vitória desse candidato, se Trump fala tanto em combater o crime organizado?”, questiona.
Para Luiz Eduardo Soares, a experiência do Rio deveria servir como advertência para o restante do Brasil. Ele argumenta que a infiltração de grupos criminosos nas instituições não produz apenas consequências para a segurança pública, mas também enfraquece a capacidade do Estado de exercer autoridade e formular políticas públicas.
Na avaliação do antropólogo, um governo associado a esses interesses poderia produzir nacionalmente um processo semelhante ao ocorrido no Rio de Janeiro.
“A resposta está na nossa cara: um Brasil dominado por gente associada a milícias é um Brasil fraco, desordenado, violento, atemorizado, desmoralizado, sem nenhuma autoridade pra se impor no cenário internacional, sem nenhuma autoridade pra impor limites às ambições dos Estados Unidos, sem a mínima capacidade de afirmar um projeto decente de país”, afirma.
Soares encerra o alerta transformando sua experiência de mais de duas décadas com a segurança pública fluminense em uma pergunta dirigida aos eleitores.
“Você não precisa ser nacionalista, não precisa ser progressista, não precisa se interessar por política. Basta responder com sinceridade a uma única pergunta: eu quero pro meu país o que aconteceu no Rio de Janeiro?”








