Para cientista político, discurso ideológico de Flávio Bolsonaro precisa ser analisado à luz dos interesses políticos e econômicos da família. Foto: Flickr/Bolsonaro

Pai, filhos, ex-esposa, atual esposa: todos na família Bolsonaro são candidatos ou têm mandato e vivem, há muitos anos, usa a política e os cargos públicos para enriquecer.

Para o cientista político Christian Lynch, a atuação política da família Bolsonaro deve ser compreendida menos pelas posições ideológicas que seus integrantes apresentam publicamente e mais pela relação que estabeleceram entre poder político, interesses privados e negócios. A entrevista foi concedida ao ICL da última sexta-feira (25).

“A gente tem que entender a natureza do candidato. Quando a gente olha a família Bolsonaro, a gente tem que entendê-la como uma empresa em busca de negócios”, afirma Lynch.

Para o cientista político, isso ajuda a compreender as diferentes promessas feitas pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e suas aproximações com grupos políticos, religiosos e econômicos.

Lynch também relaciona essa interpretação às recentes controvérsias envolvendo religião e Nossa Senhora de Aparecida na campanha presidencial. Na avaliação do cientista político, as promessas feitas a segmentos religiosos deveriam ser interpretadas como parte de uma estratégia de conquista e manutenção de poder.

“Eles vendem que são de direita e prometem tudo pra todo mundo. O importante é voltar ao poder pra continuar nos negócios e sufocar aqueles que podem ‘pegá-los’: aparelhar polícia, aparelhar Ministério Público. Eu acredito 100% que ele tenha prometido coisa do gênero para esse (grupo) evangélico de extrema direita”, diz.

“O país é pra fazer negócio”

“A lógica política da família Bolsonaro é como fazer negócios, como enriquecer. Mas tem que estar eleito, ter imunidade parlamentar e ter influência junto à polícia, junto a juízes, pra você não ir em cana. Esse é o negócio deles”, afirma Lynch.

Para o cientista político, essa lógica produziria uma relação patrimonial com o Estado, na qual as fronteiras entre interesses públicos, políticos e privados se tornam subordinadas aos interesses do grupo familiar.

“Eles têm uma visão patrimonial do país: o país pertence a eles, o país é pra fazer negócio, com Marco Rubio, com Trump, com sheik árabe.”

Lynch resume sua interpretação da trajetória do grupo com uma expressão ainda mais dura: para ele, a história política da família Bolsonaro seria a de usar a política como se fossem uns cafetões da democracia, sempre exigindo: “‘cadê meu dinheiro?’”.

Professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Christian Lynch é autor de trabalhos sobre pensamento político brasileiro, democracia e populismo e já publicou estudos específicos sobre a ascensão e o legado do bolsonarismo.

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