Donald Trump sofre um massacre eleitoral, com uma avalanche de votos para os democratas, que conquistaram a maioria na Câmara e no Senado. Foto: Doug Mills/The New York Times
Por Aldenor Júnior
“Uma máquina de guerra combina uma pluralidade de funções. Tem as características de uma organização política e de uma empresa comercial. Opera mediante capturas e depredações e pode até mesmo cunhar seu próprio dinheiro”.
Achille Mbembe, Necropolítica: Biopoder, soberania, estado de exceção, política de morte (n-1 edições, 2018).
A máquina de guerra do trumpismo não contava com o despertar das maiorias. E elas falaram alto e em todo canto: chega dessa autocracia criminosa, que em dois anos impôs um desastroso cenário de devastação institucional e social como nunca se havia visto.
Não foi, porém, por falta de avisos. A insatisfação que fermentava há meses sinalizava a ruptura das barreiras do medo. Como se dizia nos tempos passados: o que se tem a perder que não seja essas algemas que nos mantêm manietados?
A prepotência do autocrata corrupto e mandonista, que fez da Casa Branca um pardieiro, sabia, portanto, dos riscos, mas resolveu, bem ao seu estilo de jogador canastrão, dobrar a aposta. Perdeu, e perdeu feio.
Essa derrota histórica vai além de um fracasso eleitoral. A organização política e a empresa comercial que se expressam no complexo industrial-militar-datificado sofreram um revés que, no mínimo, dificultará muito a escalada autoritária que se agigantava em escala planetária.
Diante dos primeiros resultados que adiantaram o massacre nas urnas, Trump reagiu lembrando que, supostamente, possui o direito de veto, sem explicar o que exatamente quer dizer com isso.
Ainda é cedo para saber o que vai acontecer. Terá Trump condições para virar a mesa e emular saídas golpistas? Pouco provável, mas, em se tratando da corja que se adonou do Estado estadunidense, é bom ter cautela.
Lá vem chumbo
A nova maioria democrata — não obstante suas muitas contradições e limites — pode e deve impor freios à gestão ultradireitista, pela primeira vez desde janeiro de 2025. Transformar Trump em um “pato manco” deverá ser a prioridade absoluta, fechando as portas para uma eventual recuperação daqui a dois anos.
Entre as travas que podem ser impostas, talvez a principal seja aquela que trabalhe para pôr fim à aventura militar na guerra contra o Irã. Acabar com esse conflito pode trazer o mínimo de racionalidade à política externa dos Estados Unidos, neutralizando, por tabela, a estratégia de guerra sem fim patrocinada pelo igualmente cambaleante gabinete de Benjamin Netanyahu.
E o tal “presidente eleito” que foi exfiltrado do solo nacional como se faz com os agentes duplos pagos pela CIA? Flávio Bolsonaro conseguiu a proeza de ser derrotado em duas eleições em tão poucos dias, um pé-frio extraordinário.
A conjuntura de luta política e parlamentar que se abrirá após a vitória democrata pode reservar dissabores não apenas a Flávio, mas a toda a gangue de malfeitores que se acoitou debaixo da saia do trumpismo. Uma eventual investigação parlamentar revelará a teia criminosa que financiou e coordenou a rocambolesca operação de fuga, além de abrir espaço para investigar as fontes suspeitas que sustentam a célula antipatriótica coordenada por Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e caterva.
Os ventos estão virando. O Norte, ao contrário do que diz a canção, move moinhos e empurra a humanidade para isolar e derrotar a vertente mais perigosa e delinquente que a direita mundial foi capaz de criar desde os turbulentos anos do nazifascismo na primeira metade do século 20.
Aldenor Júnior é jornalista








