Criado e encenado por Ester Sá, espetáculo parte de uma personagem feminina para percorrer memórias, ancestralidade e conquistas das mulheres em uma das mais singulares manifestações da cultura popular paraense. Estreia será em Belém nos dias 6 e 7 de novembro, na Casa das Artes. Foto: Acervo/Ester Sá.

Em São Caetano de Odivelas, no nordeste paraense, bois de quatro pernas, pirrus, cabeçudos, buchudos e outros personagens fantásticos ocupam as ruas durante a quadra junina. Entre máscaras, fantasias coloridas e uma multidão de brincantes, a cidade transforma suas ruas em um território de invenção coletiva, onde a tradição vem se renovando a cada geração.

Foi nesse universo de encantamento que a atriz, diretora e contadora de histórias Ester Sá descobriu uma personagem que despertou sua curiosidade: a Vovozona, uma mulher velha, de corpo volumoso, que dança e brinca no meio do cortejo. Esse encontro com a personagem deu origem ao espetáculo “Bença Vovó”.

A montagem estreia nos dias 6 e 7 de novembro, às 19h, na Casa das Artes, em Belém. Também será apresentada em Ananindeua, no dia 11, e em São Caetano de Odivelas, no dia 14 de novembro. O projeto faz parte do projeto Vovozona e a Mulher em Odivelas, realizado com apoio do Edital nº 02/2025 – Fomento à Criação de Projetos Culturais, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB-PA).

Com dramaturgia e atuação de Ester Sá, direção compartilhada com Aníbal Pacha, também responsável pela concepção da visualidade do espetáculo, o trabalho incorpora máscaras criadas pelo Mestre Daniel Ferreira de Melo, figurinos e cenário confeccionados por Nanan Falcão, além de pinturas de And Santtos e Maurício Francco e produção de Cristina Costa.

Ester Sá conta que ouviu falar pela primeira vez nessa personagem do Boi de Máscaras em uma conversa com o artista And Santtos, natural de São Caetano de Odivelas, que falou para Ester sobre o surgimento da Vovozona e lhe mostrou registros que despertaram nela outras inquietações.

“Eu sou encantada com a manifestação, por essa liberdade e criatividade do povo nessa composição coletiva que é o Boi de Máscaras. Fiquei curiosíssima sobre a personagem, ainda mais por ser uma mulher ancestral, uma avó”, conta Ester Sá.

Em cena, Ester Sá conduz a narrativa com depoimentos, memórias e reflexões em uma dramaturgia que aproxima a experiência das mulheres da terra e dos ciclos da vida. “O elemento terra é usado como metáfora na encenação, como se do leito da terra brotassem as imagens profundas do inconsciente coletivo que contam essa trajetória. A avó é aquela que sempre esteve ali. Ela viu tudo, ela sabe tudo, ela é a voz ancestral”, afirma Ester.

Mulheres conquistam o lugar no cortejo

A curiosidade de Ester se transformou em pesquisa antes de chegar a esta estreia. Ela retornou ao município para investigar mais a fundo a origem da Vovozona e descobriu que ela nasceu da criatividade do Mestre Daniel Ferreira de Melo, que, ao tecer um buchudo, personagem de criação livre dentro do Boi de Máscaras, inspirou-se em sua avó, mulher que o criou e lhe transmitiu ensinamentos que permaneceram por toda a vida.

Dona Exídia Ferreira de Melo tinha personalidade forte e muito respeitada, pertencente à família ligada à criação do Boi Tinga, o primeiro da manifestação e, durante muito tempo, o único boi da brincadeira. Na época, ela não tinha permissão para participar dos cortejos.

Ester Sá também buscou, nas memórias de outras mulheres de São Caetano de Odivelas, histórias que nem sempre aparecem quando se conta a trajetória do Boi de Máscaras. Nos primeiros tempos, os cortejos eram exclusivamente masculinos.

Mulheres que tentassem participar, mesmo mascaradas, poderiam ser retiradas da brincadeira caso fossem reconhecidas. Algumas desafiaram as regras e, aos poucos, começaram a quebrar essa barreira. Hoje, as mulheres participam muito mais de toda a manifestação.

Os buchudos femininos são a prova de que toda cultura é viva. Ao ganhar corpo nas ruas, a Vovozona acrescenta uma nova imagem feminina a uma brincadeira na qual as mulheres já conquistaram espaços de participação e protagonismo. A brincadeira incorporou também a Bisa, uma figura feminina gigante que participa do encerramento da quadra junina.

“Em 2026, ela apareceu bem à frente do cortejo, acompanhada pelas outras vovós”, lembra Ester. “A mulher velha dançava e tinha a mão erguida, numa imagem que me marcou”, continua.

Na leitura da artista, a avó, cuja presença evoca tantas gerações de mulheres, parecia abrir o caminho para todos. “Para mim, sua mão levantada ganhou outra dimensão. Mestre Daniel me explicou que o gesto representa o movimento da dança. Eu também vejo nele uma bênção aos brincantes”, conclui Ester.

Após a estreia em Belém, o espetáculo segue para Ananindeua, município da Região Metropolitana da capital paraense, no dia 11 de novembro, e chega a São Caetano de Odivelas no dia 14. Na cidade onde nasceu a Vovozona e onde a pesquisa de Ester Sá ganhou novos sentidos, a expectativa é de um encontro especial entre a criação artística e a comunidade que inspirou o espetáculo.

Oficina: Integrando o projeto, a atriz, diretora e contadora de histórias Ester Sá ministra, no dia 19 de novembro, das 18h às 20h, a Oficina de Teatro Narrativo, na Casa das Artes, em Belém. A atividade propõe uma aproximação com os processos de criação do espetáculo “Bença, Vovó!” e de outros trabalhos narrativos desenvolvidos pela artista. Combinando relatos de experiência e exercícios práticos de composição narrativa, a oficina tem duração de duas horas e oferece 20 vagas, com declaração de participação.

Serviço

Espetáculo: “BENÇA VOVÓ”

Belém
6 e 7 de novembro de 2026, às 19h
Casa das Artes – Rua Arcebispo Dom Alberto Gaudêncio Ramos, nº 236, ao lado do Santuário Basílica de Nazaré.

Ananindeua
11 de novembro de 2026, às 16h
Usipaz Icuí

São Caetano de Odivelas
14 de novembro de 2026, às 19h
Centro Cultural do Município

Fomento: Projeto contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 02/2025 – Fomento à Criação de Projetos Culturais, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).

Ficha técnica
Pesquisa: Ester Sá e Aníbal Pacha
Dramaturgia e atuação: Ester Sá
Direção: Aníbal Pacha e Ester Sá
Concepção da visualidade: Aníbal Pacha
Consultoria técnica em iluminação: Marckson Moraes
Produção: Cristina Costa
Assistência de cena e produção: Thiago Ferradaes
Criação de máscaras e figurino da Vovozona: Mestre Daniel Ferreira de Melo
Confecção de figurinos e cenário: Nanan Falcão
Pintura de cenário (imagens): And Santtos
Pintura de cenário (nomes): Maurício Francco
Composição da música original do Boi Tinga: Mestre Silvano Garça
Edição de áudios: André Mardock
Assessoria de imprensa: Luciana Medeiros – Holofote Virtual
Arte gráfica e edição de vídeos: Lucas Serejo
Filmagem: Raul Lima e André Mardock
Intérprete de Libras: Gessica Pimentel
Audiodescrição: Lucas Martins

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