Condenar Jair Bolsonaro e os demais líderes golpistas foi um ato de coragem histórica, mas não é o ponto final em nossa longa batalha contra o autoritarismo. Foto: Rosinei Coutinho/STF
Por Aldenor Junior
Coube a uma mulher madura, que tem orgulho de seus cabelos grisalhos, selar o destino dos golpistas.
A ministra Carmen Lúcia, com sua voz mansa e firme, sustentada por uma coragem moral que a ninguém é concedido o direito de desconhecer, situou o marco histórico: aquele julgamento encerrava o “encontro do Brasil com seu passado, presente e futuro”.
Assim, enquanto um ex-presidente da República e um seleto grupo de oficiais superiores das Forças Armadas (além de um ex-ministro Justiça e um deputado federal) eram finalmente condenados por executarem um plano felizmente frustrado de golpe de estado, havia uma presença simbólica muito poderosa acompanhando cada frase da ministra julgadora, com a mão firme de quem não foge à luta e ergue a clava forte (como, aliás, fez questão de recordar o verso do hino tantas vezes enlameado nesses anos todos em que os símbolos nacionais foram sequestrados e ultrajados em praça pública).
Com ela e através dela, marcharam uma legião de caídos, massacrados, derrotados e humilhados (mas, como tivemos o privilégio de ver, jamais exterminados como promessa e utopia).
Com Carmen Lúcia, mulher-gigante, ombreando com ela e pairando por sobre aquele vetusto plenário, lá estavam:
– Os indígenas Tupinambá, líderes da primeira rebelião contra a ocupação portuguesa na Amazônia, a partir 1617: Amaro (“principal incentivador da sublevação dos tupinambazes”), que após preso, teve a morte atroz, (“na boca de uma bombarda (canhão)” e o cacique Guaimiaba (Cabelo de Velha), atingido por um tiro de arcabuz quando liderava o ataque ao forte encravado pelos invasores na beira do rio-mar;
– Os seguidores do beato Antônio Conselheiro, guerreiros famélicos, que resistiram até o fim na defesa de Belo Monte, a Terra Prometida que foi devastada pela mais indecorosa e genocida campanha do nascente exército brasileiro;
– Os marinheiros pretos e pobres, que liderados por Antônio Candido, enfrentaram a prepotência da chibata e no alvorecer do século 20 escreveram a página mais heroica da história da Marinha nacional;
– Os homens e mulheres triturados pela polícia de Getúlio Vargas e Olga Benário, revolucionária internacionalista que transformou seu amor pelo Brasil no mais belo canto pela liberdade;
– Os que se levantaram em armas contra a quartelada de 1964, nas cidades, nos quartéis, nas escolas e nos campos. A Stuart Angel Jones, anjo torto, que “na calada da noite” deve ter olhado nos olhos de seus algozes e disparado um “grito desumano/que (era a única) maneira de ser escutado”;
– Chico Mendes, coração valente, morto na covardia, na porta de sua humilde casa, pouco antes do Natal de 1988. Seu sangue gerou sementes amazonicamente e, não raro, com pouco de boa vontade, é fácil ver seu olhar na face de jovens batalhadores de rima em alguma praça periférica desse país que insiste em não perder completamente a memória; e
– Marielle Franco ladeada por tantas mulheres que ousaram defender a vida e o direito de ser o que se é, sem medo, porque no fundo a prepotência dos de cima carrega a falsa convicção de que pode triturar sonhos, quando, em verdade, apenas polemizam rebeldias.
Diante de seu espelho, o Brasil tem escolha. Não é tão difícil escolher o lado que proclama a (re)existência de um mundo de paz, alegria e justiça.








