José Crioulo foi um escravizado que o Império enforcou em 1852. Seu crime (segundo os autos) foi ter assassinado seu senhor e algoz. (Foto: Notícia publicada no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro em 20.dez.1852 sobre o julgamento do escravizado José – Reprodução)
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
Carlos Drummond de Andrade
Por Aldenor Junior
E agora, José?
Você que é sem nome.
Que faz versos, todo prosa, nas vielas da história.
Você que é sem nome, mas tem alcunha, apelido, nódoa incandescente gravada na testa.
És crioulo.
És mulato.
És preto, escravo ou forro, pouco importa.
José, nos tempos do Império, foste crioulo e com tuas próprias mãos fizeste justiça contra teu senhor e algoz.
A história te retratou altivo e abusado.
Condenado à morte por enforcamento, após julgado com extrema celeridade e prepotência, não desviaste o olhar e nem abaixaste a cabeça.
Como um Dreyfus acorrentado, disseste: “Eu acuso!”.

De condenado, cravaste a mancha da infâmia na fronte de teus assassinos.
José, és tantos.
Nos tempos da grande revolução, no Grão Pará ensanguentado, quem eras?
José Manoel, o de número 1086, nos Autos da Cabanagem:
“Paraense, índio, 25 anos, solteiro, lavrador.
Preso em Monsarás em 15 de setembro de 1836 pelo comandante da expedição de Marajó. Remetido para bordo da corveta Defensora em 25 do mesmo mês.
Acusado por Piro-Cana ter sido seu companheiro na revolução e estar escondido em uma casa no mato, com uma granadeira e cartuchame.
Morreu em 28 de outubro de 1836.”
José, o “índio”. O malvado, o bandoleiro.
Já teve vejo, armado com granadeira e cartuchame, pelos furos e rios de tua Salvaterra, na Marinatambalo, ou, como queiram, no arquipélago do Marajó de tanto Josés anônimos.
Os juízes da furiosa reação imperial escreveram: fostes “companheiro na revolução”.
Ato falho revelador de como a verdade se infiltra mesmo nos mais inóspitos ambientes.
A festa acabou, José?
Ou está apenas (re)começando?
O Brasil de tantos Josés (e Marias, óbvio) vai se reencontrar com sua sina.
Sina de vida, vida em abundância e não a severina que nos é imposta há séculos.
Como nos ensinou Drummond, José, na maior parte do tempo está perdido, nem mar há mais, nem porta, nem cavalo preto, tudo está escuro.
Mas, apesar de tudo e por isso mesmo, José (e todos os Josés) não desistem:
“Você marcha, José”
“José, para onde?”.
Aldenor Junior é jornalista.








