Linhão transmite ao Sudeste a energia de Belo Monte Foto: Beth Santos/Secretaria-Geral da Presidência da República
O Pará, junto com Amapá e Maranhão, lidera o ranking de pobreza energética no Brasil, segundo o relatório “Encruzilhada Climática: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras”, publicado na segunda-feira (6) pela Oxfam Brasil. A pesquisa revela que famílias desses estados enfrentam dificuldades tanto para acessar eletricidade de forma regular quanto para pagar as contas de energia, mesmo vivendo em uma das regiões mais ricas em recursos hídricos e produção de energia do país.
A pobreza energética se manifesta não apenas pela falta de fornecimento de eletricidade, mas também pelo custo elevado do consumo, que limita o uso de equipamentos básicos de conforto, como ventiladores, geladeiras e ar-condicionado. No Pará, quatro em cada dez famílias rurais (40%) vivem algum tipo de privação energética, enquanto nas áreas urbanas o índice cai para 15%. Em comparação, em São Paulo, apenas 6% das famílias rurais e 3% das urbanas enfrentam problemas similares.

O relatório aponta que eventos climáticos extremos, comuns na Amazônia, como secas prolongadas e cheias intensas, agravaram o problema. As ondas de calor elevam o consumo de energia, encarecendo ainda mais as contas, enquanto a baixa dos rios compromete o transporte de botijões de gás para as comunidades rurais. Nesses locais, muitos moradores recorrem à lenha e ao carvão para cozinhar ou se aquecer, práticas que aumentam emissões de gases de efeito estufa e riscos à saúde.
Mesmo com a presença de grandes hidrelétricas, como Belo Monte, com capacidade instalada de 11.233 MW, e a Usina de Tucuruí, que abastecem principalmente outras regiões do país, o Pará continua sofrendo com o acesso desigual à energia. “Enquanto a Amazônia é estratégica para o equilíbrio climático global, suas comunidades continuam sendo historicamente negligenciadas”, afirma Naira Santa Rita Wayand, coordenadora de Justiça Climática e Amazônia da Oxfam Brasil.
O estudo destaca ainda o impacto da desigualdade de renda sobre a pobreza energética. Moradores como Morgana Valadares, de Belém, enfrentam contas de luz de até R$ 500 por mês, enquanto a renda familiar não ultrapassa R$ 3 mil. Sem condições de investir em aparelhos de refrigeração, as famílias recorrem a ventiladores ou soluções improvisadas para enfrentar o calor intenso, que tem se tornado cada vez mais severo nos últimos anos.
De uns dois a três anos pra cá, é um calor absurdo. O sol vem torando. Eu queria comprar um daqueles aparelhos de refrigeração, mas fico pensando, sem isso a conta já é alta, imagina se eu coloco mais uma coisa aqui em casa.
Morgana Valadares, manicure
A Oxfam alerta que, apesar da região concentrar quatro das cinco maiores hidrelétricas do país e extrair minerais estratégicos para a transição energética, a população local permanece vulnerável. Essa contradição expõe a necessidade de políticas públicas que garantam transição energética justa e acesso universal à eletricidade, especialmente em áreas rurais e periféricas.
O relatório será um ponto de discussão na COP30, que ocorrerá em Belém, em novembro. Segundo Wayand, para que o país avance em justiça climática, é fundamental que o Plano Clima federal contemple indicadores desagregados por raça, gênero e território, garantindo recursos adequados para implementação e participação efetiva das comunidades afetadas.
“A promoção da justiça climática exige reconhecer e enfrentar desigualdades históricas em infraestrutura, saneamento, segurança alimentar e racismo ambiental. Sem isso, qualquer transição energética continuará a reproduzir as disparidades que já existem”, conclui Wayand.
Com informações da InfoAmazônia








