Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Por Aldenor Junior
O que é preciso para se decretar uma pena de morte pelas polícias do Rio de Janeiro? Basta ser suspeito? Basta ter “ficha criminal robusta”? Basta estar sob a vigilância em um território dominado (com a conivência e cumplicidade do Estado) por uma facção criminosa? Todas as alternativas estão corretas.
O esforço da gestão sanguinária do fascistóide Cláudio Castro é provar que não matou inocentes. E o conceito de inocência foi transformado numa espécie de título nobiliárquico muito difícil de se obter nas favelas.
É óbvio que a maioria dos mortos eram, de alguma forma, ligados ao Comando Vermelho. Integravam a tropa da facção e opuseram resistência, pelo menos boa parte deles, ao avanço das tropas policiais nas ruelas das comunidades do Alemão e da Penha. A questão, entretanto, não é essa.
O que é fundamental para o Estado (e não para os inquilinos de plantão) é comprovar que não executou essas pessoas após terem se rendido. Que não as fuzilou após feridas ou tendo deposto armas (se é que todas estivessem armadas, porque há uma evidente incongruência nos números de armas apreendidas e a contabilidade de mortos e presos).
Há indícios evidentes de um massacre. O maior da história moderna do Rio de Janeiro. Um novo Carandiru, turbinado e executado com os mesmos métodos por jagunços fardados.
Passados três dias, nem sinal das imagens das câmeras corporais das tropas de assalto. Esse silêncio é ensurdecedor e revela que houve uma ordem para matar e matar indiscriminadamente, em gesto de vingança privada pelas perdas que as forças policiais registraram logo no início da operação.
Enquanto os corpos são liberados (sem que tenha havido perícia independente), começa-se a ouvir o sentimento das ruas. Alguma surpresa no apoio majoritário à matança, mesmo entre os moradores das comunidades? Claro que não.
A brutalização da opinião pública não foi fruto dessa última chacina. Já são décadas de um trabalho sistemático e contínuo.
Remar contra essa maré, que funde ignorância e medo, é tão urgente quanto necessário.
São as cartas viciadas que estão sobre a mesa das eleições de 2026.
* Aldenor Junior é jornalista








