O mais longevo parlamentar do PSOL, Ivan Valente, deixou a Câmara Federal e anunciou que não disputará mais mandatos. O que a história desse lutador de quase 80 anos nos ensina? Foto: Divulgação Ivan Valente

Por Aldenor Junior

Ivan Valente, o mais longevo parlamentar psolista, tem seu nome associado ao que de melhor se produziu em termos de luta pela transformação revolucionária do mundo nas últimas décadas do século XX até os turbulentos dias de hoje. Na semana passada, após oito mandatos consecutivos na Câmara Federal, Ivan anunciou que não disputará cargos eletivos, abrindo espaço para a mais que necessária renovação entre os quadros da esquerda.

Prestes a completar 80 anos, Ivan não planeja se retirar, como uma espécie de general reformado. Antes, mudará de espaço de combate. Ele, como bem ensinou Brecht, está entre os imprescindíveis, e, portanto, seu compromisso com a luta pela transformação radical – sim, radical porque necessita ir até às raízes do sistema de opressão e de exploração vigente – permanecerá sendo exercido em outros territórios, animando e formando as novas levas de militantes que despertam para a política.

Não por coincidência, o país viveu uma semana aziaga, nefasta mesmo. Em apenas dois dias, o Congresso Nacional desnudou sua face medonhamente de extrema-direita, dando dois nocautes seguidos no governo de Luís Inácio Lula da Silva, o octogenário que encarna o único dique de proteção contra o retorno, pelas urnas de outubro, das hordas da necropolítica imantadas pelo clã Bolsonaro. A humilhante rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF – a primeira em mais de 132 anos – e a aprovação da anistia disfarçada aos golpistas de 8 de janeiro foram recados mais que suficientes da tempestade de malvadezas que espreitam o país.

Para Ivan Valente, em declaração ao jornalista Bernardo Mello Franco, de O Globo, essa crise traz também uma possibilidade de o governo reagir e operar um “giro à esquerda”: “O Centrão já escolheu seu candidato. Se Lula quiser ganhar a eleição, terá de virar a chave, defender pautas que interessam aos trabalhadores e convocar a militância para voltar às ruas. A gente precisa perder o pudor de fazer o enfrentamento”.

O andar de cima, sempre ele

E Lula falou e disse (quase) tudo. Em cadeia nacional, na véspera do 1° de maio, o presidente apontou o dedo para identificar os inimigos: “Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, as elites que só pensam em manter privilégios às custas do povo”.

Pois bem. A plutocracia – quando muito, 1% da população – é quem dita as regras, impõe o ritmo e põe o Congresso para dançar a música que achar mais conveniente. Lula, desde sempre, foi esse ser híbrido, com um pé fincado na classe que lhe conferiu consciência e sensibilidade, e com outro preso a uma estratégia de negociar melhorias por dentro – e apesar – das engrenagens desse mesmo sistema. Agora, tudo indica que o experiente líder chegou na hora da verdade: para dar um passo além e livrar o povo do sufoco e o país da dependência, ele terá de enfrentar para valer as elites predatórias que ele identificou como sendo o “sistema”. Terá, isto sim, nas palavras de Ivan Valente, de “virar a chave” e partir para o enfrentamento, opondo projetos antagônicos para que através da mobilização se produza energia e desperte consciência.

Ninguém pode duvidar do que representará uma malfadada vitória da extrema-direita em outubro. Muito menos desconhecer o que um país com a dimensão e importância global do Brasil pode ocasionar se, de uma hora para outra, virar joguete nas mãos insanas que controlam o mundo de dentro da Casa Branca.

O momento, mais uma vez, exige valentia, aquele sentimento que é em tudo oposto à pusilanimidade que tanto marca boa parte da política nacional. Armados pela esperança – renovada e por isso mesmo insolente – só resta seguir adiante, porque, todos sabem, só alcança a vitória quem jamais deixa de caminhar.

Aldenor Junior é jornalista. 

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