Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Por Aldenor Junior

Para os Krenak, o Rio Doce é o Watu, “rio grande”, sagrado desde os primeiros começos.

Para o capitalismo de risco (bem entendido, risco para a Natureza e seus seres e nunca para os plutocratas que controlam os ativos bilionários), o rio Doce é um elemento na equação lucrativa que extraía das entranhas o ferro para as fornalhas mundo afora.
Era 5 de novembro do ano da graça de 2015.

Uma manhã qualquer, sem nenhum sinal particular. Pelo menos, na aparência esse dia não se distinguiria de todos os demais.

Entre 15h30 e 15h50, porém, ouviu-se um estrondo pavoroso. Logo, uma maré de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro desceria o vale e engolfaria tudo que houvesse pelo caminho. A lama tóxica percorreria 660 quilômetros no curso do rio Doce atropelando 38 munícipios até desaguar no Atlântico.

No caminho do maior crime ambiental da história do país ficaram 19 pessoas humanas assassinadas e seres vivos sem conta naufragados na imundice parida pela Samarco, uma joint venture da Vale com a BHP, de origem australiana e inglesa.

Uma década depois – com Brumadinho no meio – outra planta industrial da Vale que rompeu às margens do mesmo rio Doce e massacrou 272 pessoas -, ainda se contabilizam os prejuízos (não apenas materiais, mas de destruição da vida e das tradições das comunidades).

No altar da prepotência, celebra-se da impunidade: crime sem castigo, ninguém foi punido criminalmente, absolutamente ninguém!

Essa tragédia foi contada por uma jornalista paraense, Cristina Serra (Tragédia em Mariana, a história do maior desastre ambiental do Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2028).
Deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas do país.

Hoje, não falemos da Vale e da BHP e de seus múltiplos e escandalosos crimes. Pronunciemos o nome das vítimas, estas que merecem ingressar no panteão dos heróis e heroínas da pátria:

Ailton Martins dos Santos, 55, motorista da Integral Engenharia;
Antônio Prisco de Souza, 74, morador de Bento Rodrigues;
Claudemir Elias dos Santos, 41, motorista da Integral Engenharia;
Cláudio Fiúza da Silva, 41, servente da Integral Engenharia;
Daniel Altamiro de Carvalho, 53, operador de máquinas da Integral
Engenharia;
Edinaldo Oliveira de Assis, 40, operador de escavadeira da Integral
Engenharia;
Edmirson José Pessoa, 48, técnico de serviço administrativo da
Samarco;
Emanuelle Vitória Fernandes Izabel, 5, moradora de Bento Rodrigues;
Marcos Aurélio Pereira Moura, 34, químico, gerente de vendas da
Produquímica;
Marcos Roberto Xavier, 32, motorista de caminhão da Vix Logística;
Maria das Graças Celestino, 64, moradora de Bento Rodrigues;
Maria Eliza Lucas, 60, moradora de Contagem;
Mateus Márcio Fernandes, 29, mecânico de manutenção da Manserv;
Pedro Paulino Lopes, 56, mecânico de manutenção da Manserv;
Samuel Vieira Albino, 34, sondador da Geocontrole;
Sileno Narkievicius de Lima, 46, motorista da Integral Engenharia;
Thiago Damasceno Santos, 7, morador de Bento Rodrigues;
Vando Maurílio dos Santos, 37, motorista da Integral Engenharia;
Waldemir Aparecido Leandro, 48, auxiliar de sondagem da Geocontrole.

Watu é seu nome. Doce é sua lembrança.

Em suas águas, desde os primeiros começos, igaras atravessavam de uma margem a outra, na comunhão indissolúvel entre tudo o que existe.

É dia de lembrar, para que não se repita.

É hora de celebrar a palavra encantada, como fez Prisca Agustoni, nascida na Suíça, coração brasileiro (O gosto amargo dos metais. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2022):

Watu é seu nome, o rio sagrado
em seu leito há mãos
geológicas de seres vegetais,
plantas pré-históricas
o léxico aquático da língua borun:

um manuscrito fechado na gaveta,
a civilização das raízes flutuantes

Watu é o rio dos dedos como garras
debaixo d’água são ramagens
enxame de cabelo
colmeias
metamorfoses de formas
e folhas

O GOSTO DOS METAIS

no começo era a lama.

logo irrompe uma pata de cavalo,
nódoa, osso sem rédeas ou crina,
rótula ou tronco desgalhado
da cartilagem nua
aflora do lodo, resvala
feito pedra ou dormente
lúcido olho enterrado,
ruína
na cerca dos fetos: enredam-se
líquens ao seu redor
como serpente
como mãos que apalpam

Aldenor Junior é jornalista

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