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Por Carolina de Oliveira – Pela primeira vez na história, líderes de todo o mundo se reúnem no Brasil, em Belém, na Amazônia, para debater o combate às mudanças climáticas. Trata-se de um marco histórico e de uma oportunidade rara para que o país e, sobretudo, a região amazônica, assumam o protagonismo no debate global sobre o futuro do planeta. Mas, enquanto isso, parte da imprensa sudestina, mais uma vez, presta um desserviço: transforma o que deveria ser um momento de reflexão e compromisso coletivo em motivo de chacota, destacando o preço de uma coxinha nos espaços oficiais da COP 30.
O episódio é sintomático. Por trás da aparente irrelevância do tema, esconde-se a velha lógica que sempre determinou as relações entre os grandes centros urbanos do Sudeste e a Amazônia: uma relação marcada pela exploração e pelo preconceito. O olhar colonial que enxerga a Amazônia como cenário exótico, depósito de recursos ou objeto de curiosidade, mas nunca como território de gente, de cultura, de luta e de pensamento.
Mais do que uma disputa política entre grupos de comunicação e o governo Lula – cuja articulação diplomática e política tornou possível a realização da Conferência no Brasil – o que se vê é a reafirmação de um padrão histórico: o de reduzir a Amazônia à condição de espaço a ser saqueado, sem direito a se pensar, a se desenvolver, a se expressar. O “inaceitável”, para muitos desses setores, é que a região comece a ter voz, visibilidade e investimento. É que a COP traga holofotes para as desigualdades regionais, para o colapso ambiental e para a miséria que assolam nossas populações, frutos diretos da exploração desenfreada que enriqueceu o Sudeste e empobreceu a Amazônia.
Nossa resposta precisa ser firme. Não basta aceitar o papel de anfitriões simbólicos de um evento global. É hora de reivindicar mais, muito mais. Que os recursos dos novos fundos climáticos não sirvam apenas para preservar as florestas, mas também para enfrentar as precariedades estruturais que condenam milhões de amazônidas à exclusão: a falta de saneamento básico, de escolas dignas, de saúde de qualidade, de moradia e de trabalho, além da fome – da qual o Pará é líder nacional e que o governo local insiste em ignorar – aprofundadas por meio do desmonte dos serviços públicos.
A COP 30 precisa ser não apenas um palco de discursos, mas um ponto de virada: um momento de reconhecimento e de reparação histórica. E isso só será possível se as populações que vivem aqui – ribeirinhos, quilombolas, indígenas, trabalhadores urbanos – forem ouvidas e tiverem papel central na definição do que se entende por “transição justa” e “preservação”. Afinal, são essas pessoas que, há séculos, preservam a Amazônia, apesar do Estado e do capital.
Carolina de Oliveira trabalha com comunicação e marketing, militante de esquerda, paulista moradora de Belém há 14 anos.








