Foto: Edna Nunes.

A Cúpula dos Povos Rumo à COP30 chegou ao fim em Belém com uma demonstração inédita de força política, ancestralidade e articulação internacional. Após dois anos de construção coletiva, o encontro reuniu mais de 23 mil credenciados, lideranças de mais de 65 países, movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais e urbanos, sindicatos, organizações ambientais e feministas. O encerramento marcou a entrega da Carta Política da Cúpula dos Povos ao presidente da COP30, André Corrêa do Lago, um documento contundente que sintetiza as principais demandas globais dos povos diante da emergência climática.

Uma plenária histórica marcada por lideranças e simbolismos

O ato de encerramento foi conduzido com forte carga simbólica. A chegada do Cacique Raoni Metuktire, ovacionado pelo público, reforçou o espírito da Cúpula: a defesa inegociável da Amazônia e da vida na Terra. Raoni alertou que os impactos climáticos já são visíveis: rios secando, chuvas irregulares, ar cada vez mais pesado.

“Se não defendermos o que resta da Terra, haverá um caos muito grande”, reafirmou.

A mesa de encerramento contou com a presença da ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; da ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva; do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos; da CEO da COP30, Ana Toni; além de representantes internacionais da Via Campesina, CUT, COIAB, CONAQ e Amigos da Terra.

Falando em nome do presidente Lula, Marina Silva leu uma carta que emociona pela síntese do desafio global:

“Mudar nossa relação com o planeta é tarefa urgente. Não podemos sair de Belém sem decisões reais sobre transição energética, fim do desmatamento e mobilização de recursos”.

Sônia Guajajara celebrou a maior participação indígena da história das COPs, com 900 credenciados na Zona Azul: “Nós não queremos só paridade, queremos ser a maior voz nos espaços de decisão”.

Boulos, por sua vez, afirmou que esta será “a COP da Verdade”, apontando diretamente para as responsabilidades históricas do Norte global e das grandes corporações.

A Carta Política: denúncia, resistência e proposição

A Carta Política entregue à presidência da COP30 sintetiza um acúmulo profundo de denúncias, propostas e compromissos coletivos construídos por mais de 1.100 organizações ao longo de dois anos. O documento reforça que a crise climática é inseparável da crise social, política e econômica que atinge povos no mundo inteiro. Nele, os movimentos denunciam a responsabilidade histórica dos países do Norte global, das corporações transnacionais e das elites econômicas pelo colapso ambiental em curso. Repudiam, com força, o avanço da extrema direita, do fascismo, das guerras e, em particular, o genocídio do povo palestino, entendendo que violência, militarização e destruição ambiental caminham juntas.

A carta reafirma também a centralidade dos territórios e de seus povos como guardiões das soluções reais. Exige consulta livre, prévia e informada diante de qualquer projeto que afete comunidades tradicionais, especialmente no Tapajós, e defende uma transição energética justa que não se baseie em mercados de carbono ou mecanismos financeiros que excluam os povos.

Ao mesmo tempo, o documento propõe caminhos concretos: fortalecer a economia do cuidado, reconhecer o feminismo como componente essencial das respostas à crise, valorizar a sabedoria ancestral e a criatividade dos territórios, e construir um internacionalismo popular capaz de unir biomas e populações impactadas. A Carta reafirma o compromisso de edificar um Movimento Internacional de Atingidos por Barragens, crimes socioambientais e pelos efeitos diretos da emergência climática, reforçando que somente a organização global dos povos pode enfrentar as estruturas que alimentam desigualdades, violências e destruição ambiental.

A maior cozinha solidária já realizada no Brasil

Um dos maiores legados do evento foi a operação histórica da cozinha solidária da Cúpula, organizada por movimentos como MST, MPA, MCP, FASE e ANA. Entre 9 mil e 12 mil refeições por dia foram servidas, tornando-se a maior cozinha coletiva da história do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

A iniciativa demonstrou, na prática, o potencial da agricultura familiar, da agroecologia e da economia solidária como pilares de uma transição justa.

Números que mostram a força do movimento

A dimensão da Cúpula dos Povos expressa a força política e social que se consolidou neste processo. Em cinco dias, foram mais de 23 mil credenciados, com uma circulação diária de cerca de 20 mil pessoas pelo campus da Universidade Federal do Pará. Lideranças, militantes, pesquisadores e representantes de mais de 65 países estiveram presentes, demonstrando a amplitude internacional da mobilização.

Os números também destacam o caráter histórico dessa articulação: mais de 1.100 organizações assinaram a Carta Política, consolidando um nível raro de convergência entre povos indígenas, quilombolas, movimentos camponeses, trabalhadores urbanos, juventudes, movimentos feministas e coletivos ambientais. A visibilidade foi igualmente expressiva, com mais de 300 veículos de imprensa nacionais e internacionais cobrindo o evento.

Esses dados confirmam que a Cúpula dos Povos se tornou uma das maiores mobilizações sociais já realizadas na Amazônia e um marco político que ecoa muito além da COP30. Aqui, os números não são simples estatísticas: são a prova concreta de uma força coletiva capaz de pressionar governos, disputar narrativas globais e afirmar que as soluções para a crise climática nascem dos territórios e da organização popular.

Ancestralidade, espiritualidade e unidade: a força que move a luta

O encerramento foi marcado por homenagens, cantos, apresentações culturais e a entrega simbólica de mudas e sementes às autoridades, símbolos da continuidade das lutas e da esperança plantada nos territórios.

Entre as falas mais marcantes, a ideia de que “a fé e a alegria lutam contra a morte e a tristeza” apareceu como síntese da resistência dos povos da Amazônia e do mundo.

Um marco político para a COP30

A audiência pública que apresentou oficialmente as pautas da Cúpula ao governo federal consolidou um compromisso institucional: a voz dos povos será levada à COP30. Marina Silva, Sônia Guajajara e Guilherme Boulos reafirmaram que as demandas populares não serão ignoradas.

A Cúpula dos Povos sai de Belém com uma mensagem inequívoca: a resposta à crise climática nasce nos territórios, na ancestralidade, nas lutas coletivas e na solidariedade internacional, nunca nos mercados.

A partir daqui, os povos do mundo cobram que a COP30 esteja à altura da história que está sendo escrita.

Propostas apresentadas pela Cúpula dos Povos

  • Enfrentar todas as falsas soluções de mercado e afirmar que ar, florestas, águas, terras, minérios e energia são bens comuns e não mercadorias.
  • Garantir participação e protagonismo dos povos na construção das soluções climáticas, com reconhecimento pleno dos saberes ancestrais.
  • Demarcar e proteger terras indígenas e territórios tradicionais e assegurar políticas de desmatamento zero, restauração ecológica e recuperação de áreas degradadas.
  • Concretizar a reforma agrária popular e fortalecer a agroecologia como caminho para soberania alimentar e combate à fome.
  • Enfrentar o racismo ambiental e construir cidades justas, com políticas de moradia, saneamento, regularização fundiária, transporte público digno e acesso à água e ao verde.
  • Assegurar participação popular na formulação das políticas climáticas urbanas e barrar a mercantilização da vida nas cidades.
  • Defender o fim das guerras e da militarização e destinar recursos hoje voltados ao setor bélico para reparação de regiões atingidas pela crise climática.
  • Exigir reparação integral por perdas e danos causados por mineração, combustíveis fósseis, barragens e desastres ambientais, com responsabilização das empresas.
  • Valorizar o trabalho de cuidado e reconhecer sua centralidade para sustentar a vida humana e não humana, garantindo autonomia e justiça feminista.
  • Construir uma transição energética justa, popular e soberana, com proteção aos territórios e superação da pobreza energética.
  • Defender o fim da exploração de combustíveis fósseis e criar mecanismos que impeçam sua expansão, especialmente na Amazônia e em ecossistemas sensíveis.
  • Taxar grandes corporações e grandes fortunas e garantir financiamento público para a transição justa, responsabilizando os setores que mais lucram com a crise.
  • Rejeitar modelos de financiamento climático que reforçam desigualdades e defender estruturas transparentes e democráticas que reconheçam a dívida socioambiental do Norte global.
  • Fortalecer a proteção a defensores e defensoras de direitos humanos e ambientais e enfrentar a criminalização dos movimentos sociais.
  • Criar instrumentos internacionais juridicamente vinculantes para responsabilizar empresas transnacionais por violações de direitos humanos e ambientais e implementar plenamente os direitos camponeses como pilar da governança climática.

LEIA AQUI a Declaração Final da Cúpula dos Povos: A Carta dos Povos

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