A fumaça densa, carregada de material particulado, que obriga famílias a abandonarem suas casas de madrugada em busca de refúgio, é apenas a face visível de uma teia criminosa – Fotos: divulgação

Quem veio ao Pará para a COP 30 se encantou com a cidade e viveu intensamente a receptividade, a cultura e a culinária amazônica. No entanto, ao chegar ao último dia da Conferência, o balanço é extremamente negativo para o que realmente importa: o combate às mudanças climáticas.

Os impasses globais persistem, principalmente quanto à responsabilidade de cada país, enquanto governos e grandes multinacionais dos setores mais poluentes aproveitaram o evento para se vestir de verde e tentar emplacar discursos de sustentabilidade que não condizem com suas práticas. Um símbolo dessa contradição é dado pelo próprio anfitrião da COP, o governador do Pará, Helder Barbalho.

Hoje, 21 de novembro, último dia da Conferência, a apenas 18 km da Zona Azul e a 10 km da casa do governador, os moradores de Benevides — município com cerca de 69 mil habitantes na Região Metropolitana de Belém — amanheceram sem poder respirar, com a retomada das atividades das carvoarias no município.

Economia predatória: Carvoarias no município de Benevides (PA). Durante a realização da COP 30, as atividades desse setor foram suspensas.

A fumaça densa, carregada de material particulado, que obriga famílias a abandonarem suas casas de madrugada em busca de refúgio, é apenas a face visível de uma teia criminosa. Essa rede opera para sustentar a produção de carvão a baixo custo, alimentando os altos-fornos das indústrias de ferro-gusa no Polo Siderúrgico de Marabá e ao longo da PA-150.

Além do apoio ao desmatamento, as carvoarias liberam grandes quantidades de material particulado (MP2,5 e MP10), monóxido de carbono e compostos orgânicos voláteis. Há consenso na literatura médica: a exposição contínua a esse tipo de poluição aumenta os índices de doenças respiratórias agudas, crises de asma, infecções pulmonares e problemas cardiovasculares. Estudos da Fiocruz e da Abrasco demonstram que populações expostas à queima de biomassa têm risco significativamente maior de mortalidade precoce, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com comorbidades.

A lista de crimes envolvidos nessa rede é extensa: licenciamento ambiental irregular, presença de crianças nas áreas das carvoarias, trabalho análogo à escravidão, poluição atmosférica intensa, contaminação dos rios da região, corrupção de agentes públicos que antecipam informações sobre fiscalizações e associação com facções criminosas que garantem que nenhum morador denuncie o que vem acontecendo.

Durante a realização da COP 30, as atividades desse setor foram suspensas e os trabalhadores entraram em férias coletivas, assim como serrarias, mineradoras de pequena escala e guseiras. Mas hoje, com o clima de final de festa somado ao feriado prolongado — quando não há fiscalização ostensiva —, as atividades do setor foram retomadas, e o verdadeiro caráter da economia predatória do Pará voltou a funcionar. Sem constrangimento, sem compromisso, sem fiscalização, a 10 km da casa do governador e a 18 km da COP, para quem quiser ver.

Enquanto isso, famílias de Benevides — invisíveis para a diplomacia ambiental — procuram refúgio onde podem para exercer um direito básico: respirar.

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