No rastro da anarquia fundiária e do tráfico de drogas vigente na região, mais um crime que aponta para a existência de milícias agindo livremente no Vale do Acará. A recente falência da BBF (Brasil Bio Fuels) agrava o conflito que se arrasta há anos.

Por Aldenor Junior – Segundo o Portal G1 Pará, na madrugada deste domingo, 30, homens encapuzados abriram fogo contra os integrantes da ocupação Boa Esperança, localizada às margens da rodovia PA-481, no município de Barcarena. Três pessoas foram mortas e outras duas resultaram feridas a bala e estão recebendo atendimento na UPA de Vila dos Cabanos, sem risco de morte.

Este é mais um capítulo sangrento das disputas fundiárias, com registro da presença de milícias de pistoleiros, grileiros de facções ligadas ao tráfico de drogas na região. No fogo cruzado, crescem as agressões contra as comunidades tradicionais no Vale do Acará e no Baixo Tocantins, no nordeste paraense.

Para entender o contexto de mais essa chacina, é preciso puxar o fio que interliga esses conflitos ao ano de 2007, quando é fundada a Biopalma.

Essa empresa nasceu para ser mais um grande projeto na Amazônia. Prometia investir bilhões na produção de biocombustível a partir do processamento do dendê, seguindo regras de sustentabilidade e em parceria com os pequenos produtores. Desse sonho dourado, passados 16 anos, o que restou foi um sangrento rastro de degradação socioambiental, violência fundiária e escalada da criminalidade. Escreve-se com sangue os últimos capítulos da saga da Biopalma (depois, BBF).

Lançado no auge da onda desenvolvimentista do segundo mandato do presidente Lula, a exploração em larga escala do dendê no Pará foi se consolidando como um modelo de monocultura incapaz de manter equilíbrio econômico e de se relacionar de forma correta com os milhares de pequenos agricultores atraídos para o negócio com as promessas de vantagens que logo se mostraram falaciosas.

Além do aspecto econômico, os conflitos fundiários e a relação atritada com as comunidades tradicionais – indígenas da etnia Tembé, quilombolas e ribeirinhos – explodiram em violência e em muitas denúncias de crimes ambientais e de roubo de terras em meio a uma grilagem praticada por múltiplos agentes, com evidentes elos com o poder econômico e com os políticos locais.

As digitais da Vale

Como virou quase uma regra, a presença da Vale foi introduzida no projeto logo no seu nascedouro, em 2011, quando a mega mineradora comprou o controle da Biopalma por US$ 173,5 milhões. Em menos de uma década, o colapso do empreendimento ficou patente, com dívidas que chegavam perto de R$ 1 bilhão. Neste momento, em 2020, entra em cena um obscuro grupo com sede em Rondônia, a Brasil Bio Fuels (BBF). Foi o passo decisivo para tornar a situação que já era ruim em um quadro de insustentabilidade total, culminando com a decretação da falência da empresa pela 12ª Vara Cível e Empresarial de Belém, em 7 de agosto deste ano.

Inconformada, para evitar a completa bancarrota, a BBF trava uma batalha jurídica para entrar em recuperação judicial e assim ganhar melhores condições para negociar uma dívida de R$ 1,26 bilhão.

Enquanto isso, os conflitos vão se multiplicando, deixando um rastro de degradação socioambiental e colecionando vítimas fatais.

As quadrilhas que agem na região são conhecidas. Parte da violência deriva da própria estrutura paramilitar mantida pela BBF, mas o fenômeno já alcança proporções bem maiores. Os grupos de grileiros e de traficantes de drogas se movimentam com incrível liberdade, espalhando o terror. As autoridades policiais têm o dever de colocar um ponto final no verdadeiro cangaço que se instalou a poucos quilômetros da capital paraense.

*Aldenor Junior é jornalista.

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