Jair Bolsonaro ao lançar seu primogênito, direto da cadeia, fez um gesto com a marca do desespero. Ter um filho disputando a Presidência em 2026 virou questão de vida ou morte para o clã mais famoso da extrema direita brasílica – Foto: Ed Alves/CB

Por Aldenor Junior

“O sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente” (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)

Para a surpresa de zero pessoas, fechando uma semana agitada e repleta de manobras e tretas típicas de um filme de Os Trapalhões, eis que, direto da carceragem da Polícia Federal em Brasília, o ex-presidente e atualmente presidiário Jair Messias Bolsonaro, anunciou à nação que, num gesto algo imperial, que seu filho mais velho foi indicado por ele para manter o sobrenome da família na urna eletrônica – a mesma que foi tão atacada e aviltada tempos atrás – na disputa presidencial do próximo ano.

Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e golpista de primeira hora, traz todas as demais características que distinguem o grupo, ou seja, desde muito cedo revelou a falta de caráter e o ímpeto por praticar os atos mais indignos e lesivos ao interesse público. É justamente esse perfil que o credencia, óbvio. Uma pessoa de bem jamais poderia ser o vértice de um movimento político fascistóide que foi parido às sombras sob o impulso de um movimento ultraconservador em escala planetária.

O impacto do anúncio foi brutal. A bolsa caiu e a moeda estadunidense deu um salto, indicando que os analistas do mercado avaliaram a manobra como um gigantesco tiro no próprio pé (da direita, of course). Com Flavio confirmado como pré-candidato pelo PL – “Se o capitão falou, tá falado”, papagueou o obediente Valdemar da Costa Neto -, o governador Tarcísio de Freitas, o preferido pelos operadores da Faria Lima, estaria com seu caminho bastante obstruído, deixando o espaço para uma vitória, quem sabe em primeiro turno, do presidente Lula.

Tudo somado, a semana termina com um constrangedor clima de barata voa no seio da direita e do bolsonarismo.

O fator Michelli

Até a madrasta Michelli se apressou a compor o (suposto) coro dos contentes com o lançamento de Flávio Bolsonaro.

Justamente ela que começara a semana às turras com ele e com todos os demais enteados. O que parecia ser uma desavença diante de uma esquisita aliança regional – o apoio da extrema-direita cearense a Ciro Gomes, antigo e loquaz desafeto de Jair – trazia o germe de uma disputa feroz pelo legado do líder encarcerado e inelegível até 2060. Manobrando com um misto de astúcia e firmeza, Michelli parecia ter ganho o primeiro round da batalha intrafamiliar. Só que não, pelo menos aparentemente.

A pergunta que muitos se fazem é se Flávio terá fôlego ou sucumbirá exposto à sua própria biografia (melhor dito, sua folha corrida)? Já começaram a circular as cenas patéticas de Flávio desmaiando ao vivo e em cores durante um debate de candidatos à Prefeitura do Rio, em 2016. Logo serão relembradas suas muitas malfeitorias. Suas digitais no mal enterrado escândalo das rachadinhas. Ou, ainda, a compra de imóveis em dinheiro vivo e sua fantástica franquia de venda de chocolate, talvez a mais lucrativa do mundo. A lista é extensa, e, com certeza, trará de volta ao noticiário a suspeitíssima operação de crédito feita no BRB, o banco preferido pelos políticos delinquentes, para a compra de sua atual mansão de R$ 6 milhões de reais, em Brasília.

Submetido à chuva ácida tanto da esquerda como da direita abrigada nas Orcrim do Centrão, o 01 poderá naufragar em breve. E é aí que Michelli tende a ressurgir, uma Fênix missionária, com a língua afiada para defender não apenas a herança eleitoral do esposo e chefe, mas, sobretudo, a pureza da doutrina extremista que anima um contingente formado por milhões e milhões de evangélicos e cristãos fundamentalistas.
Quem (sobre)viver, verá. Para que o Brasil não despenque nesse precipício, há que apressar o passo na construção de uma via de caráter popular e amplamente democrático, cujo único homem capaz de liderá-la completou recentemente 80 anos e responde pelo nome de Luís Inácio Lula da Silva.

Até porque a semente do mal só deixará de representar um perigo real e imediato depois de incinerada de uma vez por todas, com suas cinzas lançadas na lata de lixo da história. Está aí o maior desafio existencial da democracia brasileira. É pegar ou largar.

*Aldenor Junior é jornalista

 

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