Com requintes de crueldade, a Câmara dos Deputados protagonizou um de seus piores momentos. De uma só tocada, premiou os golpistas de 8 de janeiro com uma anistia disfarçada e lembrou, pela força, que a ditadura não está tão morta quanto parece – Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Por Aldenor Junior

A expressão foi cunhada por Franklin D. Roosevelt. Em discurso histórico à nação, nominou o 7 de dezembro de 1941, o traiçoeiro ataque japonês à base estadunidense de Pear Harbor, como o Dia da Infâmia, para traduzir o caráter nefasto e indigno da ação militar dos nipônicos. Brasília, nesta terça-feira, 9, viveu seu momento mais degradante em muitas décadas. Infâmia, desprezo, covardia, violência, tudo somado ainda é pouco para traduzir o espetáculo dantesco que se viu na sede do parlamento nacional.

A tropa de choque do Centrão e seus sempre aliados da malta bolsonarista fizeram valer sua maioria numérica para aprovar, na madrugada de hoje, 10, uma anistia disfarçada aos golpistas de 8 de janeiro, projeto há muito anunciado como forma de livrar a pele de Bolsonaro e dos demais cabeças da tentativa de destruição da democracia brasileira, que já estão cumprindo as penas exemplares de prisão, em regime fechado, que lhes foram impostas pelo STF.

Mas, para a desgraça e humilhação do Legislativo – um Poder que foi depredado, ultrajado e espezinhado pela ação furiosa dos golpistas há tão pouco tempo – a manobra foi conduzida por um tiranete cuja ausência de estatura moral traduz de forma perfeita o mar de lama que engolfou a política do país e que na maior parte das vezes responde pelo nome de “centro”, “Centrão”, “direita moderada” (sic). Sob o véu da enganação, lá estão as mesmas digitais dos reacionários que aplaudiram os gorilas de 1964, consagrando o golpe de Estado na madrugada de 2 de abril daquele fatídico ano. UDN, depois Arena, depois PSD, depois PP, PFL, Republicanos, PSD, União Brasil e seus filhotes todos que andam de jatinhos e se lambuzam até o pescoço com o crime organizado. Hugo Motta, de apenas 35 anos, é esta figura emblemática dos tempos turvos que expõe as vísceras de uma democracia corrompida e dominada pela lógica das máfias.

No mesmo dia em que desfechavam o golpe contra a Constituição que juraram defender, esses cardeais da pilantragem, como espécie de corolário de suas baixezas, protagonizaram as cenas estúpidas de um parlamentar sendo arrastado, na porrada, do plenário, em meio à imposição da censura e ao espancamento de jornalistas. Foi quase uma assinatura, para lembrar que para os adoradores de Brilhante Ustra não há limites a ultrapassar.

A anunciada cassação do combativo Glauber Braga soa como um escarnio. Como não é mais possível adiar a cassação – justa, legal e imprescindível – de três parlamentares da extrema-direita – Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem -, alguma cabeça iluminada teve a ideia de “equilibrar a parada”, guilhotinando também um parlamentar de esquerda, cuja acusação não se assemelha nem de longe ao elenco de crimes praticados pela matilha criminosa representada por esse trio de meliantes, aliás, dois deles já ostentando pesadas condenações judiciais.

Quem deterá a manobra?

Resta, agora, ao Senado, também dominado pelas mesmas e por outras facções congêneres, funcionar como barreira de contenção às manobras que de tão toscas e sórdidas já não causam a indignação necessária.

Imaginem que caberá a Davi Alcolumbre a missão de acelerar ou retardar a tramitação do projeto de anistia meia boca aprovada pelos deputados. Ele é o mesmo que liderou na tarde de ontem, por 52 dos 81 votos, a aprovação da imoral e inconstitucional PEC 48/23, reafirmando a tese do Marco Temporal, cujo maior objetivo é surrupiar e violentar os territórios indígenas ainda não demarcados. Tempos difíceis, portanto.

Há sinais contraditórios neste sentido vindos do Senado, espaço que tem, vez por outra, brecado as manobras mais irresponsáveis da turma de Motta et caterva. O que se sabe, em qualquer hipótese, é que será cobrado um preço. Nada se resolve por lá sem que algum interesse subalterno seja satisfeito.

E Jair Bolsonaro deve ter dormido mais tranquilo e com menos soluços. Afinal, sua pena de 27 anos e três meses poderá ser reduzida a indecentes dois anos, isso, claro, se tiver “bom comportamento” e “trabalhar e estudar” na cadeia. Desce o pano da imoralidade nacional!

O Brasil, por outro lado, deve amanhecer consciente de que não haverá futuro enquanto a política for uma espécie de latifúndio cuja segurança cabe a jagunços da estirpe de Artur Lira e Hugo Motta, para citar apenas dois que integram a camarilha de malfeitores de ternos caros e impecáveis cabeleiras, que ditam as regras em Brasília. São seres abjetos, que um dia, pela vontade popular, serão devolvidos ao esgoto do qual surgiram.

*Aldenor Junior é jornalista

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