Presidente Donald Trump – Foto: reprodução
A brutal invasão militar dos Estados Unidos na Venezuela sinaliza um novo ciclo de agressões e de hegemonia na ponta do fuzil. Quem flertar com essa modalidade de “diplomacia do porrete” tende a provar de seu veneno mortal
Por Aldenor Junior
A hora dos predadores, no fundo, não passa de um retorno à normalidade. A anomalia foi o breve período em que se acreditou possível domar a busca sangrenta pelo poder por meio de um sistema de regras.
Giuliano da Empoli (A hora dos predadores)
Corria o ano de 1855 e a jovem república norte-americana ainda dava seus primeiros passos como potência emergente nas Américas, experimentando o gosto de impor seus interesses pela força das armas. William Walker, um aventureiro que vivia de ações de pirataria, resolveu se apossar da pequena e ensanguentada Nicarágua. Depois de se autoproclamar “presidente” teve lá seus dias de fama e de fúria, quando restaurou a escravidão e imaginou estender a fronteira estadunidense até os confins da América Central. Mas, tudo não passou de uma quimera trágica. Ele foi escorraçado pela resistência conjunta de patriotas centro-americanos. Passou à história como flibusteiro, um tipo muito característico de pirata, bandido das águas, desonesto e trapaceiro. Encontrou a morte em Honduras, quando tentava mais uma vez violar a soberania das nascentes repúblicas daquela região sempre conflagrada.
Corte rápida para 2026, às 1:59 de 3 de janeiro. Donald Trump, segundo seu próprio relato, acompanha on line, cercado por seus principais asseclas, a ação das forças especiais que, em meio a uma forte mobilização de caças, drones e bateria de mísseis, realizariam com sucesso a operação de sequestro do presidente Nicolas Maduro e de sua esposa, Cília Flores, capturados e retirados do país à força. Como se fosse uma cena de videogame, Trump se vangloria de ter assassinado vários militares cubanos que deram a vida para defender o mandatário venezuelano. É a celebração do sucesso (momentâneo e imoral) da necropolítica que impõe sua vontade sob o olhar majoritariamente cúmplice da comunidade internacional.
O que se viu a seguir não deixou margem a dúvidas. Os Estados Unidos se julgam detentores do direito de intervir e impor sua vontade imperial onde quer que imaginem ser necessário para preservar ou ampliar seus interesses. No caso específico, ao invadir, violar e ameaçar recolonizar o país detentor das maiores reservas petrolíferas conhecidas no mundo, Trump manda um recado claro para quem ainda nutria esperanças em um mundo regulado por regras e por princípios do Direito. Vale, agora, a força bruta e ponto.
Algum desavisado – ingênuo ou mal-intencionado, pouco importa – pode crer que a ação contra Maduro decorreu dele supostamente ser um “ditador”, “tirano” e “violador dos direitos humanos”, além de “narcoterrorista”. Essa narrativa de pé quebrado foi paciente e tenazmente engendrada pelos mesmos autores da “guerra contra o terror” e da busca das “armas de destruição em massa” no Iraque. Fica a pergunta: que moral Trump tem para se apresentar como paladino da liberdade se é ele mesmo que sustenta o carniceiro Benjamin Netanyahu e seu genocídio continuado na Palestina? Ou também não é a mesma Casa Branca que mantém relações carnais com o ditador saudita Mohammad Bin Salman, um notório esquartejador de adversários (no sentido literal, inclusive)?
No final, após deixar um incalculável rastro de morte e destruição, o que transparece, para quem quiser enxergar, são os mesmos interesses econômicos e geopolíticos de uma potência decadente do ponto de vista econômico, mas ainda hegemônica militarmente. Está armado o circo de horrores que teve, na madrugada deste sábado, um de seus capítulos mais infames.
Vendilhões em êxtase
Enquanto ainda se contavam os mortos da intervenção criminosa dos Estados Unidos na Venezuela – cerca de 40, pelo menos – e Donald Trump vivia momentos de glória abastecendo a grande mídia com seu material tóxico onde pululam relatos de espionagem e ameaças de “governar” diretamente este país sul-americano e se apossar, na mão grande, de suas reservas de petróleo, políticos da extrema-direita e seus sócios do Centrão se revezavam na comemoração pública da criminosa investida militar de um país estrangeiro nas bordas das fronteiras brasileiras.
Do clã Bolsonaro, com sua falta patológica de caráter, era de se esperar algo assim. Afinal, foi deles a ideia de abrir uma bandeira gigante dos Estados Unidos em plena avenida Paulista, no último 7 de setembro, quando o Brasil acabara de sofrer pesadas sanções comerciais ordenadas pela Casa Branca. Mas, claro, esse comportamento de quintas-colunas marca todo o espectro político da tal oposição conservadora, tendo à frente os governadores que sonham sentar-se, a partir de janeiro de 2027, na cadeira que Luís Inácio Lula da Silva ocupa, com uma altivez que deve soar inexplicável para esse bando de facínoras.
Todos os alarmes democráticos precisam disparar: nas eleições de outubro se jogará o futuro do país e, sem exagero, parte também da capacidade mundial de opor resistência à onda supremacista que tem na Casa Branca seu covil mais evidente. O Brasil tem um peso estratégico capaz de ajudar a construir um muro de contenção contra a hegemonia boçal que pretende se impor por mecanismos cada dia mais bárbaros, tornando obsoletas as antigas ações encobertas ou agressões por procuração tão em voga nas décadas de Guerra Fria. A partir de agora, decreta a vigência da lei do mais forte, sem mais delongas.
O Brasil e demais países latino-americanos não temos vocação para escravizados. Não lamberemos o chão dos palácios, não importando a torcida pusilânime de parte mais necrosada de nossas elites.
Na terra de Bolívar, neste momento, trava-se a batalha pelo futuro. Não faltemos ao chamado da Grande Pátria.
Aldenor Junior é jornalista








