Foto: Reprodução/Instagram

Como a marcha do deputado federal mineiro se insere na estratégia da extrema direita de capturar atenção nas redes sociais, transformar engajamento em capital político e deslocar o foco das pautas que realmente afetam a maioria da população.

Por Levi Menezes

A política brasileira tem sido cada vez mais atravessada por ações pensadas menos para o debate público e mais para o desempenho nas redes sociais. A recente “caminhada pela liberdade e justiça”, promovida pelo deputado federal Nikolas Ferreira, ilustra bem esse movimento. O trajeto anunciado entre Paracatu e Brasília, apresentado como protesto contra as prisões do 8 de janeiro e como defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, funciona, na prática, como uma encenação cuidadosamente planejada para gerar visibilidade, engajamento e repercussão digital.

Esse tipo de iniciativa se explica pela lógica da chamada economia da atenção. Nas plataformas digitais, o que está em disputa não é a falta de informação, mas a capacidade de capturar o olhar e a emoção das pessoas. Algoritmos tendem a favorecer conteúdos que despertam reações fortes — indignação, medo, revolta — porque esses sentimentos mantêm o usuário conectado por mais tempo e ampliam o alcance das publicações.
A extrema direita compreendeu esse funcionamento e passou a explorá-lo de forma sistemática. Marchas simbólicas, discursos de perseguição e narrativas conspiratórias não surgem por acaso. Elas são desenhadas para provocar reação imediata, gerar conflito e ocupar o centro do debate, mesmo quando não apresentam propostas concretas ou soluções para problemas reais.

Enquanto esse espetáculo se desenrola, questões que impactam diretamente a vida da maioria da população acabam ficando em segundo plano. Emprego, renda, inflação, acesso a serviços públicos, desigualdade e violência raramente ganham o mesmo espaço que ações performáticas pensadas para viralizar. A política, nesse contexto, corre o risco de se reduzir a uma sucessão de gestos simbólicos, esvaziados de compromisso com transformações reais.

No Brasil, o bolsonarismo construiu um ecossistema digital eficiente ao combinar vídeos curtos, memes, humor agressivo e linguagem simples, facilmente replicável. A caminhada se transforma, assim, em uma fonte constante de conteúdo para redes sociais, mantendo a base mobilizada e alimentando a sensação permanente de conflito e ameaça.

Para o campo progressista, o desafio não é ignorar essa disputa, mas enfrentá-la com responsabilidade. Disputar atenção não significa abandonar conteúdo ou recorrer à desinformação. Significa encontrar formas mais diretas e compreensíveis de comunicar políticas públicas, dialogar com o cotidiano das pessoas e recolocar no centro do debate aquilo que realmente importa. Caso contrário, o espaço público seguirá dominado pelo espetáculo, enquanto os problemas concretos continuam sem resposta.

Levi Menezes é Jornalista

Deixe um comentário