Foto: reprodução/CITA
Por Aldenor Junior
Lanças aos céus, pés cravados no solo sagrado, um grito preso na garganta que, enfim, pode conhecer a comunhão de corpos pintados de urucum e jenipapo: vitória! Não uma conquista qualquer, mas um feito histórico que serve para demonstrar que a passividade e o horizonte baixo não costumam ser boas companhias, pelo menos para quem tem consciência da brutal luta que se trava nesta encruzilhada civilizacional.
Após 33 dias de ocupação, os povos indígenas do Tapajós alcançaram a revogação do decreto 12600, um instrumento de violência institucional que jamais deveria ter sido editado. Conquistou-se assim o que para muitos seria impossível: forçar um recuo em um processo de apropriação dos bens públicos pela iniciativa privada, no caso, estamos falando dos poderosos interesses do agronegócio transnacional. Sem dúvida, uma das maiores vitórias alcançadas pela luta social – não apenas indígena, fique claro – em toda essa década.
Ao contrário do que alguns possam supor, o recuo do governo Lula não deve ser visto como derrota ou sinal de fragilidade. Menos ainda como fruto de cálculo eleitoral. Muito embora tardia, a decisão merece ser valorizada. Não é qualquer coisa um governo que tenha capacidade de escutar as vozes dos povos originários e da sociedade civil. Como qualquer governo, o de Lula sofre pressões , de cima e de baixo da pirâmide. Não esqueçamos que se trata de um governo que não faz o suficiente para alterar o modelo de reprimarização da economia, que tem no agronegócio exportador um pilar macroeconômico de peso.
Só um governo de base popular teria condições de fazer um movimento como esse, dando o braço a torcer e, além disso, ter o processo como lição.
Isso tudo para reafirmar que o movimento indígena se ergueu, mais uma vez, como referência vital nas lutas contemporâneas. A natureza não pode virar commodity. Rios não são estradas para a soja e minério. A memória ancestral e sua promessa de futura não serão dígitos na roleta alucinante das bolsas de valores mundo afora.
A luta, essa caminhada que vem de tão longe, está apenas começando.
Sawê!
Surara!
Aldenor Junior é jornalista








