Não pode haver luta verdadeiramente revolucionária se o programa socialista não considerar a questão da classe-gênero feminino. Foto: Ponto de Pauta/gerada por IA
Por Elias Araújo
No capitalismo, a luta de classes, além do embate contínuo – às vezes velado, outras vezes aberto – entre o proletariado e a burguesia, dá-se de forma mais discriminatória e mais violenta contra a classe-gênero feminina, seguindo e agravando a opressão e a exploração dos regimes precedentes sobre as mulheres, especialmente as trabalhadoras.
No caso do Brasil, uma das formações sociais fundada na escravidão de indígenas e africanos por oligarquias agro-minero-exportadoras sempre subordinadas aos interesses das potências imperialistas hegemônicas, a desigualdade social profunda, acompanhada de uma cultura de violência e de desprezo das elites em relação à maioria do povo, recai ainda com maior gravidade sobre as mulheres.
Com efeito, ao domínio de classe da burguesia se soma o domínio dos corpos e das mentes das mulheres, sob o corolário político-ideológico do universo simbólico judaico-cristão que impõe e justifica o patriarcado, inclusive sobre os homens oprimidos, que funcionam como meio de apropriação do trabalho da mulher, como mais-valia indireta do “trabalho doméstico” feminino e familiar, não remunerado, mas imprescindível à manutenção e reprodução da força de trabalho.
A superexploração da classe-gênero feminino se dá diretamente pela desvalorização da mercadoria-trabalho feminino em face da compra da mercadoria-trabalho masculino com o mesmo tempo e a mesma qualidade técnica, mas também, indiretamente, pela apropriação da jornada dupla ou tripla feminina, que suporta o trabalho masculino e garante a manutenção e reprodução da força de trabalho, incluindo o cuidado do exército industrial de reserva.
Essa discriminação capitalista do valor-trabalho mantém e reforça a discriminação histórica da mulher, a supremacia masculina, inclusive como mais-valia a partir do trabalho abstrato gerador de valor, composto pelo trabalho não remunerado da mulher.
A desvalorização da mulher nas relações de trabalho capitalista transborda especialmente para formas de violência quando as mulheres passam a ocupar o lugar reservado social e culturalmente aos homens em todos os espaços de produção e circulação de mercadoria, bem como nos espaços de prestação e gestão de serviços públicos e privados.
As conquistas de direitos femininos antecipam os avanços das lutas de classes em favor das trabalhadoras e dos trabalhadores, por testarem e romperem os limites econômicos, políticos e ideológicos hegemônicos sob o regime capitalista. Por isso, nas crises deste, os primeiros direitos atacados são os direitos femininos, e a violência de classe sobre o proletariado expressa-se em violência de gênero extremada que, mesmo incidindo sobre as mulheres de todas as classes sociais, recai de forma mais extrema sobre a classe-gênero feminina, e nesta sobre as descendentes dos povos escravizados.
A luta socialista revolucionária há, portanto, de destacar a luta pelos direitos da classe-gênero que mais força, denuncia e desafia os limites democráticos e civilizatórios do capitalismo. A luta contra a discriminação, a exploração e superexploração, e a violência contra a mulher é estratégica para os trabalhadores e para a radicalização democrática e para a libertação de toda a sociedade.
Elias Araújo – Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.







