Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Aldenor Junior

O país desperta para a verdadeira epidemia de violência contra as mulheres. São ecos do passado, de certo, mas há um novo contexto que desafia implementar medidas eficazes de combate

“Por que morte e homem
andam de mãos dadas?”
Carlos Drummond de Andrade – “Especulações em torno da palavra homem”

Quem deu a letra foi o próprio presidente Lula: o combate ao feminicídio e a todas as formas de violência de gênero é, sim, coisa de homem, e, portanto, cabe ao homem a responsabilidade pela superação dessa verdadeira chaga social. Enquanto a sociedade brasileira não entender a dimensão estrutural deste tema, estaremos enxugando gelo, o que significa a manutenção do horrendo status de um país que, em 2025, segundo dados reunidos pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), consumou ou tentou 6.904 feminicídios, algo como 18,91 casos por dia!

Não se diga que este tema tenha ficado sob o tapete. A cada dia, parcelas crescentes da população despertam para o verdadeiro nó da questão: os homens, desde muito cedo, precisam ser educados a não cometer violência contra as mulheres, para que cresçam em um ambiente de respeito e empatia. Ora, parece uma platitude, mas não é, muito pelo contrário. A par da tradição secular de uma sociedade sustentada pela herança patriarcal, assiste-se hoje um recrudescimento em escala ampliada de todos os tipos de misoginia, estimulados pela atmosfera regressiva que a extrema-direita dissemina.

Como se sabe, o bolsonarismo faz muito mal à saúde. Na verdade, sua ideologia retrógrada se alimenta do ódio e, sim, mata e mata em dimensão oceânica.

Mas é também verdade que nas últimas duas décadas os avanços foram notáveis, bastando atentar para a rede de proteção legal às mulheres, com a Lei Maria da Penha como maior símbolo de que o Brasil começa a pagar sua dívida histórica. Entretando, em sentido inverso, ergue-se uma camada tóxica de perenização do preconceito e, mais ainda, da disseminação do ódio patológico em relação às mulheres.

Está aí para quem tiver olhos para ver o movimento “red pill”, que apregoa que os homens estariam sob opressão ou manipulação pelas mulheres na sociedade contemporânea. Tudo sob o acoitamento criminoso das grandes plataformas e seu onipresente algoritmo.

O longo braço da lei

É óbvio que o machismo estrutural e a misoginia precisam de um combate sistemático, permanente e em múltiplas frentes. O mero punitivismo – mesmo que absolutamente necessário – não será suficiente caso deixe de ser acompanhado por um forte investimento em políticas públicas na área da educação e do convívio social.

Aldenor Junior é jornalista

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