Não adianta culpar os céus e nem somente atestar a grande quantidade de chuva que caiu em um curto espaço de tempo. Os severos impactos que o temporal de ontem, 19, produziu em Belém e demais municípios da Metropolitana decorreram de ações e omissões humanas. Foto: Reprodução

Por Aldenor Junior

Belém e demais municípios da Região Metropolitana ficaram debaixo d’água, literalmente. Neste final de semana, num espaço de 24 horas, teriam caído cerca de 150 mm de chuva, segundo dados da Prefeitura de Belém. Já o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), citado pelo Portal UOL, fala em 78,2 mm somente no domingo. O que importa é que se tratou de um evento climático extremo, com pesadas consequências sobre a população da capital e de Ananindeua, sobretudo. Uma tragédia mais que anunciada.

Chuvas intensas nos meses de março e abril não chegam a ser novidade. Mas, ninguém duvida que esses eventos tenham se radicalizado nos últimos anos. Segundo dados oficiais, a maior chuva em duas décadas ocorreu em abril de 2005, com mais de 200 mm. E, há seis anos, a capital foi castigada por um temporal de 165 mm.

Por trás dos números e da pirotecnia das medidas tomadas por quem efetivamente possui responsabilidade pelo acontecido – autoridades terrenas e não o inocente São Pedro e sua chave de acesso ao céu – despontam dramas humanos de cortar o coração. Famílias que perderam tudo, arrastado pela inundação. Casas invadidas pelas águas. Resgastes dramáticos em botes improvisados, enquanto o socorro que deveria ter sido urgente demorou horas para aparecer ou, em vários locais, nem deu as caras.

Essa é, sem dúvida, a dimensão mais relevante. Ao decretar estado de emergência ontem, 19, à noite, o subprefeito Igor Normando quis mostrar iniciativa. Uma manobra de resultado incerto, mas que capturou a atenção da grande mídia e deu discurso para seus seguidores nas redes sociais.

Desta feita, diante da gravidade da situação e do desespero dos moradores que desde a manhã do domingo cobravam ações dos governantes, Igor optou por evitar se expor de bota e colete da Defesa Civil em alguma área inundada, como fez em ocasiões anteriores. O receio de ser hostilizado orientou a decisão de permanecer em local seguro e controlado, num tal de centro de comando e controle, cercado de assessores.

Cadê as obras da COP30?

O discurso do governo do Estado e de sua subprefeitura na capital vendeu a ilusão de que as bilionárias obras da COP30 seriam suficientes para acabar com os alagamentos e inundações. Pelo menos, nas áreas que receberam essas melhorias. Mas nem isso aconteceu. Os canais da Doca de Souza Franco e da Tamandaré transbordaram. Fica a pergunta: com os gastos de mais de meio bilhão de reais, essas obras deveriam ter executado um eficiente sistema de drenagem, inclusive com a recuperação e instalação de novas comportas. Por que isso não aconteceu?

Há, porém, uma outra camada nessa discussão e que remete a algo mais estrutural: o modelo de urbanização que privilegia a impermeabilização do solo, com a concretagem das margens dos rios, igarapés e canais urbanos contribui decisivamente para o aumento dos alagamentos e inundações. Diante do fato consumado, resta jogar a culpa no rigor do clima, numa esfarrapada costura discursiva para, ao menos, criar o ambiente de dissonância cognitiva.

Há poucos dias, a governadora Hana e o subprefeito Igor, em cerimônias distintas, festejaram o lançamento de dois grandes programas de asfaltamento de vias. O governo promete 400 ruas e a Prefeitura fala em inacreditáveis 800 vias pavimentadas. É o velho e bom asfalto eleitoreiro. Dizem que haverá drenagem, mas não há uma fiscalização séria que possa de fato comprovar se os valores milionários terão o fim prometido.

Provavelmente, uma auditoria séria encontrará dutos ligando esses contratos – sempre assinados com empresas “amigas e parceiras” – aos caixas clandestinos da campanha eleitoral que já começou e prospera diante do olhar leniente da Justiça, diga-se.

A escritora estadunidense Patricia Highsmith batizou um livro de contos com o título “Nada é o que Parece Ser”. No drama de milhares de famílias vítimas da inundação deste final de semana estamos diante de muito mais do que aparece na superfície. Há responsáveis que se escondem e, alguns mais astutos, até tentarão tirar proveito. Falta um despertar – marcado pela dor e pelo abandono – capaz de iluminar o quadro e fazer valer o direito de quem merece viver com dignidade.

Aldenor Junior é jornalista.

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