Produção do Repórter Brasil acompanha sobrevivente e advogado em meio a tentativas de encobrimento do crime que vitimou dez trabalhadores rurais – Foto: Divulgação/documentário Pau D’Arco

Estreou no último dia 25 de junho, na plataforma Netflix, o documentário “Pau D’Arco”, dirigido por Ana Aranha. A obra revisita um dos episódios mais brutais da violência no campo brasileiro: a chacina que resultou na morte de dez trabalhadores sem-terra durante uma operação conjunta das polícias civil e militar, em maio de 2017, dentro de uma fazenda ocupada no sudeste do Pará, na fronteira da Amazônia.

Com uma abordagem que transcende o registro jornalístico, o filme mergulha no cotidiano dos sobreviventes e na persistente busca por verdade e reparação. A narrativa se concentra em Fernando dos Santos, único sobrevivente que não oculta sua identidade e primeira testemunha a prestar depoimento. Em imagens capturadas ainda no calor dos acontecimentos, Fernando relata com detalhes a execução do namorado e a tortura de colegas antes dos assassinatos. Mas o documentário vai além do papel de vítima: revela um homem que trocou a vida urbana pelo sonho da terra própria, e que enfrenta, com humor e inteligência, a solidão de ser gay no interior do Brasil.

Ao seu lado, o advogado José Vargas, jovem idealista que deixou o Paraná para atuar no escritório do pai, torna-se peça-chave na defesa dos trabalhadores. O filme flagra seu dia a dia em audiências e momentos íntimos, expondo o preço pessoal de contestar ordens de despejo e enfrentar poderosos interesses na região. Sua atuação coloca ele e a família sob ameaça direta, num contexto em que o silenciamento dos sem-terra parece ser a regra.

A produção, que traz assinatura do Repórter Brasil e Amana Cine, em coprodução com a RioFilme, ainda revela acontecimentos chocantes que sugerem uma tentativa sistemática de obstruir as investigações. Mais do que um registro histórico, “Pau D’Arco” é um retrato íntimo da resistência humana diante da barbárie – e um lembrete de que, para os sobreviventes, a luta por justiça e pela terra segue tão viva quanto no dia da tragédia.

Com informações do Repórter Brasil.

Nota: Fernando dos Santos Araújo, que sobreviveu ao massacre no município de Pau D’Arco em 2017, foi morto com um tiro na nuca no dia 26 de janeiro de 2021, em seu lote na Fazenda Santa Lúcia, para onde havia voltado depois de passar pelo Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas e deixar a região. Fernando era a principal testemunha do Massacre.

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