Foto: Reprodução
Por Aldenor Junior
O colapso de uma obra de mais de meio bilhão de reais, com apenas três meses de inaugurada, pode revelar um misto de desleixo e corrupção
A Avenida Liberdade, via expressa de 14 Km interligando a avenida Perimetral, em Belém, à Alça Viária, em Marituba, passou de cartão postal da gestão Helder-Hana para uma fonte de grandes dores de cabeça.
Após apenas três meses de inaugurada, com direito a fanfarra e muito uso e abuso da máquina pública para fins eleitorais, a nova avenida acabou interditada devido a um rompimento de 150 metros de seu piso. E não foi o primeiro incidente, na medida em que desde a primeira semana de abertura ao público a via já mostrava afundamento de vários trechos, especialmente nas proximidades das várias pontes que existem no trajeto.
Como se sabe, essa não é a única polêmica que cercou esta obra, defendida com unhas e dentes pelo ex-governador Helder Barbalho e por sua fiel escudeira, Hana Ghassam, como a solução para desafogar o trânsito na tumultuada BR-316, até então, a única entrada e saída por meio rodoviário da capital paraense.
São inúmeras as denúncias de atropelos aos direitos de comunidades diretamente afetadas, assim como sobre os prejuízos à fauna existente na Área de Proteção Ambiental rasgada pela nova estrada. A isso tudo, somam-se agora fortes indícios de que esta construção teria sido marcada por muito mais do que falhas de engenharia, causadas por incompetência ou por pressa em entregar a obra obedecendo o calendário eleitoral e não as reais necessidades da obra. Há sinais de que um suposto propinoduto pode também ter contribuído para o vexame que a população assiste sem conseguir entender.
Ora, o problema parece não se resumir a um caso de desleixo com os cofres públicos, o que já seria muito grave quando se trata de uma obra que sangrou, no mínimo, cerca de R$ 500 milhões de reais. Há muita coisa que precisa ser elucidada e urgentemente explicada pelas autoridades públicas envolvidas.
Dados oficiais, obtidos nos canais de transparência pública, revelam que no Consórcio licitado para construir a obra encontra-se uma empreiteira ligada ao notório deputado federal Antonio Leocádio dos Santos, conhecido como Antonio Doido (MDB), que desde o ano passado vem sendo investigada como parte da organização criminosa montada pelo parlamentar para desviar recursos federais em obras tocadas pela gestão Helder Barbalho.
O Doido e seu laranjal
Trata-se da Jac Engenharia Ltda, que no papel pertence a Geremias Hungria, empregado de uma das fazendas de Antonio Doido*, e da esposa do deputado, Andréa Dantas. Fontes que acompanham o cenário empresarial paraense, asseguram sob anonimato, que esta empresa ocuparia o lugar de líder informal do consórcio, coordenando todas as demais, inclusive firmas com muito mais capital e expertise nesse tipo de obra civil.
O consórcio Liberdade, criado em 14 de junho de 2024, é formalmente coordenado pela empresa paulista Paulitec, com vasto acervo de obras no Pará desde os tempos dos governos tucanos, e composto pelas seguintes empresas: Ameta Engenharia Ltda, Construtura Norte Brasil Ltda, F.N. Crespo Neto e Cia Ltda, além, claro, da suspeitíssima Jac Engenharia.
Para quem perdeu a memória, Antonio Doido é um político que nos últimos anos se gaba de frequentar a copa-cozinha do clã Barbalho. Porém, desde as vésperas da eleição passada, quando concorreu e foi derrotado na disputa pela Prefeitura de Ananindeua, ele transitou velozmente para o noticiário policial.
Atualmente, Doido é investigado em inquérito no STF, sob a relatoria do ministro Flávio Dino, acusado de liderar um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e diversos crimes eleitorais.
Foi ele e a esposa que protagonizaram, em dezembro do ano passado, a cena hilária de lançar seus celulares pela janela do apartamento funcional em Brasília, diante da presença em sua porta de equipe de policiais federais que foram executar mandado de busca e apreensão.
Óbvio que a equipe da PF não teve dificuldade para recolher os aparelhos na calçada do prédio, mostrando que o casal de políticos não ganhou fama por possuir inteligência acima da média.
Pois bem, cabe à governadora Hana explicar qual a efetiva participação da Jac Engenharia na obra da Avenida Liberdade? Os graves problemas construtivos teriam algo a ver com a expertise da dupla Antonio Doido e Andréa Dantas na arte de malversar recursos públicos?
O povo paraense, cuja maioria amarga tantas agruras para sobreviver com menos de dois salários mínimos mensais, tem o direito de saber.
Aldenor Junior é jornalista.
*Nota da editora: À época da abertura do inquérito, Geremias Hungria, empregado de uma das fazendas de Antônio Doido, constava como um dos sócios da JAC Engenharia. Atualmente, constam no quadro da empresa Andrea Costa Dantas, esposa do deputado, como sócia, e Bruna Firmiano Mangas, como administradora.








