A cada duas horas, uma pessoa preta ou parda é assassinada pela polícia no Brasil. Em 2025, foram 4330 vítimas da letalidade policial – Foto:divulgação

Por Aldenor Junior

Sábado, 27 de junho. Um dia normal no Riacho Doce, periferia de Belém. De repente, explode a violência. Policiais militares invadem uma casa, arrombando a porta com um alicate. Sobem as escadas sem dar chance a qualquer reação. No terceiro andar, ainda deitado, Dilsinho recebe um tiro fatal na barriga. Ali mesmo, sem que houvesse chance de socorro, irá sangrar até a morte.

Os gritos da mãe do jovem enchem o ar, como uma rasga-mortalha.

Haverá algo mais cruel do que uma mãe não conseguir socorrer o próprio filho que se esvai numa poça de sangue?

Imagens que circularam nas redes sociais mostram um PM esbofeteando a mãe do jovem assassinado, cuja passagem pelo mundo do crime – a acusação é a mesma de sempre, pequenos furtos e venda de drogas, numa reprodução de uma espiral de violência que parece não ter fim.

Sua ficha criminal autorizaria sua execução sumária?

No mundo do direito, claro que não.

Mas, na vida real de milhões de brasileiros, esse desfecho está longe de ser exceção.
Quem apertou o gatilho?

No caso, segundo moradores que pedem anonimato (por razões óbvias), trata-se de um PM conhecido como o “maior matador do batalhão”.

Fecha-se o pano, sem que ninguém se comova. É mais um pobre, jovem, preto ou pardo, que teve sua vida interrompida. “Bandido morto”, “CPF cancelado”, dirão alguns, até dentro da própria comunidade que não suporta viver mais sob fogo cruzado.

Dilsinho virou estatística. Número que sangra, sem despertar emoção para além de seus familiares – lembrem, por favor, dos gritos de desespero de sua mãe – e dos vizinhos que enfrentaram a polícia com paus e pedras na vã tentativa de que fosse autorizado socorro médico ao rapaz que agonizava.

No dia seguinte, ninguém mais falou disso. Página virada, cruz em uma sepultura em algum cemitério cuja pobreza serve de espelho para tantas vidas marcadas pela tragédia.
Entretanto, o jovem assassinado pela PM paraense na periferia da capital é parte de engrenagem muito mais ampla e cruel.

Segundo dados divulgados pela Rede de Observatórios de Segurança, somente em 2025, em sete estados brasileiros, 4330 pessoas foram vítimas da letalidade policial. Isso representa mais de 11 mortes por dia, uma a cada duas horas.

Essa super chacina, legalizada e naturalizada por uma sociedade que se vê refém de um férreo ciclo de violência , tem um endereço certo: 64,8% das vítimas são jovens negros.

Isso mesmo: a cor da pele faz toda diferença na hora de se receber um balaço no peito.

E o Pará, apresentado pela propaganda do governo Helder-Hana como uma ilha de segurança e prosperidade, não consegue esconder que suas forças policiais funcionam como verdadeiras máquinas mortíferas.

No ano passado, das 632 vítimas da letalidade policial no Pará, 516 eram pretas ou pardas, o que significa 8 mortes por cada 100 mil habitantes negros, a segunda pior cifra entre os estados considerados na pesquisa.

A tragédia segue espalhando medo e terror. De nada adianta trombetear outros números que revelariam a queda nos casos de crimes, como faz a mídia governamental. Não é isso que se sente, não é disso que se morre o dia todo e todos os dias nas vielas de nossas comunidades, na capital e no interior.

A pergunta incomoda é uma só: até quando a população massacrada entregará seu destino nas mãos de seus algozes?

Dobrando a esquina, logo ali em 4 de outubro, o eleitorado estará diante da possibilidade de mudar os rumos dessa triste história.

Aldenor Junior é jornalista

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