O dia em que o passado nos visitou com toda a sua crueldade, demonstrando que o país está preso a mecanismo secular de exploração do trabalho. Foto: Auditores-Fiscais do Trabalho (AFT) momentos antes do resgate da trabalhadora em condomínio de luxo na região metropolitana de Fortaleza. Divulgação

Por Aldenor Júnior

“Escravas. O Escrivão Oliveira Mello, tem para vender duas escravas, sendo
uma moça, robusta, sem vícios nem moléstia e que sabe perfeitamente lavar
roupa, cozinhar e um pouco de engomar, servindo também para ama-seca, por ser muito pacata e obediente, preço 1:300$; outra um tanto idosa, sofrendo de reumatismo somente nas pernas, bastante humilde, tendo apenas o vício de gostar de aguardente, e muito própria para trabalhos de lavoura, preço 600$000” (Biblioteca Pública Arthur Vianna, Diário de Belém, 13/03/1881).

“Uma mulher de 62 anos foi resgatada de uma situação apontada como trabalho análogo à escravidão após atuar por mais de cinco décadas como empregada doméstica, sem remuneração, para uma mesma família no Ceará” (Folha de São Paulo, 7 de julho de 2026

Quantos anos separam essas duas notícias?
Exatos 145 anos!

Nesses tempo, o Brasil deixou de ser Império, aboliu (formalmente) o regime da escravidão, proclamou a República e, nela, passou por seguidas mudanças pelo alto e por golpes militares variados.

Porém, há algo que parece não mudar, como se entranhado em nossa própria carne: o sistema de exploração brutal e desumano da mão de obra, escravizada, (sub)assalariada, uberizada ou, simplesmente, lançada ao léu, um gigantesco oceano de seres humanos privados de trabalho e dignidade.

Existe, nesse Brasil do século 21, quem relativize o terror da escravidão e permaneça tentando esconder suas marcas em brasa sobre a carne de uma nação incompleta, assimétrica, desigualmente perversa.

Há, fazendo companhia a esses modernos senhores de engenho, uma vasta parcela da sociedade que continua a associar pobreza à preguiça, exatamente como seus antepassados faziam, ao mesmo tempo em que utilizavam capitães do mato e feitores para defender a sociedade falsamente branca do perigo iminente do haitismo. O que vinha a ser isso ?Era o pesadelo de ver, um dia, a grande revolta dos que não têm nada a perder. Como na pequena ilha do Caribe, os negros da terra poderiam devolver, com juros e correção, cada um dos açoites recebidos por séculos. Ergam-se as garantias do direito, da lei e da ordem, contra essa revolução em germe, potência a ser erradicará a ferro e fogo.

Um museu de velhas novidades

2026, Fortaleza, em um condomínio de luxo qualquer. Uma mulher, negra com certeza, é libertada por fiscais do Ministério do Trabalho. Desde os 7 anos servia como escrava para três gerações de uma mesma família. Não recebia salário e qualquer direito trabalhista. Aliás, sua Bolsa Família era apropriada pelos patrões, que faziam desse benefício o único pagamento a que ela tinha direito (se é mesmo que via a cor desse dinheiro integralmente).

Essa percepção brasileira tem nome: ódio de classe, desprezo ancestral por quem possui apenas sua força de trabalho, a ser explorada até a última gota.

A matéria da Folha de São Paulo não revela do nome dos patrões criminosos. Sua identidade foi preservada pelas autoridades . São gente de bem, devem ir à missa ou ao culto regularmente, em nome de Jesus, amém. Arrisco dizer que há 100% de chance de usarem verde e amarelo e de se definirem como “conservadores, cristãos e gente de bem”. Alguém duvida?

1881, Belém, no início do ciclo da Borracha que a faria um projeto inconcluso de Paris n’América. Um escrivão tinha duas escravas para vender. Seus nomes são omitidos no anúncio publicado na imprensa. Não eram vistas como seres humanos, mas apenas peças, bens que eram comercializados livremente e, depois, estariam em um inventário como parte da herança de seus donos.

Quem eram elas? Quais seus nomes de batismo? Nascidas no Brasil ou da geração das que atravessaram o Atlântico nos navios tumbeiros? Jamais se saberá. De uma coisa porém não há dúvida: suas marcas estão aí, por todo canto, numa cidade que jamais existiria sem o trabalho forçado de tantos seres humanos reduzidos pelo flagelo da escravidão.

Que rufem os tambores por essas duas mulheres, heroínas de uma Pátria que um dia terá conquistado o direito de ser um verdadeiro abrigo para todos os seus filhos e filhas.

Aldenor Júnior é jornalista.

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