Inauguração em Augusto Corrêa celebra a resistência e os saberes de uma comunidade que ergueu, com as próprias mãos, um reduto de identidade viva. Foto: Divulgação

No próximo dia 22 de agosto, nas terras de Urumajó, em Augusto Corrêa (PA), algo muito especial florescerá no coração da Reserva Extrativista (RESEX) Araí-Peroba. Ali, a comunidade de Araí não apenas abre uma porta, mas convida o mundo a entrar em um tempo onde o fazer manual, o saber dos avós e o perfume da farinha fresca ditam o ritmo da vida. Nasce o Ponto de Cultura Quintal Ancestral: Cultivando Sabores e Saberes Araienses.

Este não é um museu estático ou um monumento esquecido. É, na verdade, um organismo vivo. Cada detalhe, da casa de barro ao rancho, do mobiliário tradicional até aquela sentina de barro que guarda a história das rotinas rurais, tudo foi construído pelos próprios moradores. É uma obra feita por muitas mãos, um projeto que, antes de ser desenhado no papel, foi sentido na pele e na memória de quem vive ali.

O idealizador desse movimento, o antropólogo e professor Miguel Picanço, enxerga o Quintal como uma trincheira cultural. “O Quintal Ancestral é a nossa resposta ao apagamento das memórias rurais. Quando a comunidade ergue esse espaço, ela não está apenas construindo casas de barro, está reafirmando que o modo de vida caboclo, com sua culinária complexa e sua sabedoria sobre o território, é ciência e é patrimônio vivo”, destaca Picanço.

Educação patrimonial e comunidade

Para além das vivências locais, o Quintal Ancestral assume um papel fundamental na formação escolar ao se consolidar como um espaço de educação patrimonial. O projeto aposta na articulação direta com as escolas da comunidade e do município, criando uma ponte de diálogo entre o conhecimento acadêmico e a sabedoria ancestral. Essa interação permite que estudantes vivenciem, na prática, a valorização de sua história, compreendendo o Quintal como uma extensão da sala de aula onde o patrimônio cultural é o protagonista da aprendizagem e do fortalecimento da identidade local.

Um mergulho no cotidiano caboclo

Para quem visitar o Ponto de Cultura, a experiência promete ser uma imersão sensorial. O projeto recria o cotidiano das populações rurais da Amazônia Atlântica, oferecendo um refúgio para quem deseja entender a essência do “comer e viver” dessa região. Além das visitas guiadas, o espaço funcionará como um centro permanente de educação patrimonial. Haverá rodas de conversa com pescadores, oficinas de tecitura de cofos e, claro, o exercício sagrado da produção de farinha e beiju.

A inauguração também será palco para o lançamento do livro “Comida Cabocla: Epistemologias do Comer e Viver Amazônidas”, de autoria de Picanço. A obra é um complemento perfeito para o espaço, destilando anos de pesquisa sobre como a comida, na Amazônia, é muito mais do que sustento — é identidade, é política e é afeto.

Uma celebração de sabores O ponto alto dessa jornada inaugural, que começa a partir das 9h, será o “Banquete Caboclo”. Esqueça o óbvio: o menu é um convite para desbravar os paladares profundos da RESEX Araí-Peroba. O cardápio contará com o tradicional avuado, a vigorosa virada de camarão e a doçura reconfortante dos mingaus de cruera e arroz vermelho.

O Quintal Ancestral chega para ser um ponto de encontro entre o conhecimento científico e a sabedoria ancestral. Mais do que isso: chega para garantir que as futuras gerações de Araí saibam, com rumo e orgulho, de onde vêm as mãos que plantam, colhem e transformam o chão da Amazônia.

Serviço:

O quê: Inauguração do Ponto de Cultura Quintal Ancestral
Quando: 22 de agosto de 2026, a partir das 9h Onde: Comunidade de Araí – Urumajó – Augusto Corrêa (PA), na RESEX Araí-Peroba
Programação: Inclui acolhida e roda de conversa, lançamento de livro, visita guiada, vivência na casa do forno, oficina de saberes tradicionais e banquete coletivo.

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