Foto: Ocupação liderada por mulheres indígenas na Funai de Altamira em março deste ano. Crédito: Xingu Vivo para Sempre
Uma campanha de solidariedade foi lançada para arrecadar recursos destinados à família da liderança indígena Pyja Xipaya, do povo Xipaya, que está impedida de retornar à Aldeia Tukamã, na Terra Indígena Xipaya, no Médio Xingu, sudoeste do Pará.
As doações serão destinadas à compra de alimentos, medicamentos e ao custeio de moradia temporária enquanto a situação judicial não é resolvida. A chave Pix da campanha: pyjaxipaya@gmail.com
Segundo o Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), a família vive uma situação de extrema vulnerabilidade após uma decisão liminar da Vara Federal de Altamira determinar o banimento de 12 pessoas da Terra Indígena. Entre os atingidos estão quatro crianças, duas adolescentes e uma idosa de 65 anos.
Movimento denuncia deslocamento forçado
O movimento afirma que a decisão foi tomada sem contraditório, sem perícia antropológica e sem a oitiva do Ministério Público Federal, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Defensoria Pública da União (DPU). O pedido de remoção das famílias foi feito pelo Conselho da Gestão Territorial da Terra Indígena Xipaya, que alegou descumprimento de acordos internos e “severo conflito comunitário”.
Entre as pessoas banidas está Pyja Xipaya, mulher indígena criada na Aldeia Tukamã, onde vivem seus familiares e sua comunidade. O outro indígena afetado é Bebere Bemarai Xikrin.
Os dois indígenas são lideranças que lutam em defesa dos territórios do Xingu e contra grandes empreendimentos na região. Pyja Xipaya é uma das lideranças do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu e esteve à frente, em 2026, das mobilizações em Altamira contra o projeto de mineração de ouro da Belo Sun, denunciando riscos de contaminação do rio Xingu, do solo, dos peixes e das áreas indígenas. Bebere Bemarai Xikrin, por sua vez, é liderança na Terra Indígena Trincheira Bacajá e denuncia desde 2019, ameaças provocadas por mineradores, grileiros e grandes projetos, incluindo o avanço da Belo Sun.
Mesmo considerando, e respeitando, a autonomia que as organizações representativas dos povos indígenas possuem, a decisão do Conselho de Gestão Territorial da Terra Indígena Xipaya, recorrendo à justiça dos não-indígenas e pedindo a expulsão de um grupo em conflito, apresenta um precedente muito perigoso, que, ao gerar jurisprudência, pode ser reivindicado em qualquer outro tipo de situação, fragilizando, inclusive, as formas tradicionais de resolução de conflitos dos povos indígenas.
Para o MMIMX, trata-se de um caso de deslocamento forçado de indígenas de seu território tradicional, o que considera incompatível com a Constituição Federal e com tratados internacionais assinados pelo Brasil.
Segundo o movimento, Pyja Xipaya também teria sido alvo de ameaças e de uma campanha de difamação por se posicionar contra interesses econômicos que incidem sobre a região, entre eles o empreendimento minerário Belo Sun.
Com a decisão, duas famílias da Aldeia Tukamã estão atualmente abrigadas de forma precária na Terra Indígena Coohiraca, do povo Arara, após um período de internação hospitalar e recuperação pós-operatória.
Na nota pública, o MMIMX pede a revogação imediata da medida judicial, o retorno seguro das famílias à Terra Indígena Xipaya e a atuação da Funai, da DPU, do Ministério Público Federal e do Ministério dos Povos Indígenas para garantir assistência e proteção às pessoas atingidas. Elas ainda afirmam que não aceitarão o banimento de indígenas de seu território tradicional e encerram o documento com a defesa de que “não há indígena sem terra; não há justiça sem escuta”.








