Apoio explícito a Flávio Bolsonaro, tarifaço, desmoralização das urnas eletrônicas, articulações de Eduardo Bolsonaro, envio de assessores ao Brasil: efeitos da Doutrina Monroe sob Trump. Foto: Divulgação
O embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Assuntos Internacionais, advertiu integrantes da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, durante recente audiência pública, sobre a possibilidade de ações unilaterais e de intervenção direta dos Estados Unidos (EUA) no Brasil. Os alertas de Amorim se devem, entre outros motivos, ao vídeo feito pelo Departamento de Estado dos EUA em que o país confirma ser uma potência imperialista e que o continente americano é mesmo sua zona de influência.
O vídeo do Departamento de Estado foi divulgado em 11 de agosto pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera. Na diplomacia, nenhum gesto é sem sentido: a participação de Washington na independência do Panamá, que fazia parte da Colômbia até 1903, foi direta, decisiva e motivada pelo interesse estratégico de construir o Canal do Panamá, obra fundamental à economia estadunidense. Conforme a peça audiovisual produzida pela administração Trump, que faz referência à Doutrina Monroe, do século 19, o domínio estadunidense sobre toda a América “nunca mais será questionado”.
Diante da ameaça escancarada e da gravidade das falas do assessor de Lula na Câmara, especialistas em relações internacionais falam sobre os riscos à soberania brasileira, em especial nas eleições deste ano, e os métodos que os EUA podem adotar contra o Brasil.
As bases de uma nova Doutrina Monroe sob Trump
Oitenta anos antes da independência do Panamá, em 2 de dezembro de 1823, o então presidente dos EUA, James Monroe, estabeleceu as bases da Doutrina Monroe, a nova visão estadunidense para o continente americano, durante discurso anual ao Congresso. Naquele momento, os EUA queriam reiterar a posição do país contra o colonialismo europeu. As relações com os latino-americanos, contudo, passaram dessa retórica à hegemonia direta, marcada por intervenções militares, dominação econômica e disputas ideológicas contínuas ao longo dos últimos 200 anos.
“As intervenções armadas se tornaram mais frequentes após a Guerra Civil [Americana, de 1861 a 1865], quando foi acelerada a expansão econômica do país, o que se estendeu até 1933. Com a ‘política da boa-vizinhança’, as intervenções diretas ocorreram apenas de forma esporádica, sendo retomadas agora, em uma nova conjuntura. A conjuntura do reposicionamento norte-americano na região, diante da crescente presença chinesa“, explica o professor Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista no tema História da América.
Em janeiro desse ano, a administração Trump depôs e sequestrou Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela. Contra Cuba, utiliza-se de sanções econômicas semanais para derrubar o regime socialista. Às vésperas de promover eleições gerais, o Brasil enfrenta o tarifaço da Casa Branca, além de outras medidas com caráter de ingerência. Segundo Vidigal, os EUA interveem constantemente e isso não deveria causar espanto.
“É o país com maior estoque de capital acumulado no Brasil, inclusive no setor de tecnologia, mantém programas de cooperação no âmbito militar e policial, cooperação científica junto a universidades, bolsas de estudo, entre outras formas de atuação. Ou o apoio de Donald Trump a Flávio Bolsonaro não é uma forma de ingerência, ainda que verbal?”, questiona Vidigal.
Eleições brasileiras
O apoio explícito de Trump ao clã Bolsonaro ganhou teor intervencionista por conta da carta escrita pelo republicano quando houve o segundo tarifaço às exportações brasileiras. Sem apresentar provas, ele justificou os embargos citando o ex-presidente Jair Bolsonaro, cujo julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) teria sido “uma vergonha internacional”, na opinião de Trump.
Como se sabe, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente Bolsonaro, mudou-se para os EUA em março de 2025, onde passou a trabalhar para que a Casa Branca impusesse tarifas contra o Brasil e sanções a autoridades brasileiras.
Em junho, o Supremo Tribunal Federal condenou Eduardo a quatros anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. O objetivo das tarifas, julgou o Supremo, era desestabilizar e impedir o prosseguimento da ação penal contra seu pai, que acabou condenado a 27 anos de prisão, em 11 de setembro de 2025, por liderar a trama golpista.
Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro, é o candidato da ultradireita nas eleições de outubro e deve ser o principal opositor de Lula. Enrolado no escândalo do Banco Master e atrás nas pesquisas de intenção de voto, Flávio tentou, nas últimas semanas, desmoralizar as urnas eletrônicas, mesma estratégia golpista utilizada por seu pai. O senador foi recebido por Trump na Casa Branca em maio.
À reportagem, o historiador e diretor de Relações Internacionais da Fundação Perseu Abramo (FPA), Valter Pomar, garantiu que os EUA “já estão intervindo” nas eleições brasileiras.
“Primeiro, com ameaças diárias. Segundo, com medidas judiciais. Terceiro, com tarifaço. Quarto, com ameaça de intervenção militar. Quinto, com apoio político à extrema direita. Sexto, com apoio material de diversos tipos. Sétimo, com as redes ‘antissociais’ e outras interferências cibernéticas. E devemos estar prontos para ver eles ‘pedirem as atas’ de nossa eleição, não reconhecerem o resultado e se comportarem como se a Venezuela fosse aqui”, enumera Pomar.
O Instituto Conhecimento Liberta (ICL) traçou o perfil dos quatro funcionários do Departamento de Estado dos EUA escalados para intervir nas eleições no Brasil. Eles são considerados radicais até para os padrões da ultradireita internacional. O primeiro é o diplomata e cientista político Darren Beattie, que foi impedido de entrar no Brasil após ter o visto revogado pelo Governo Lula. O objetivo de Beattie era visitar Jair Bolsonaro na prisão.
O segundo se chama Samuel Samson, subsecretário-adjunto de Estado para Direitos Humanos e Trabalho. O terceiro é o chefe de Samson, Riley Barnes, secretário de Estado para Direitos Humanos e Trabalho. O Governo Lula negou visto a ambos.
Por último, Daniel Perez, ex-deputado pelo Partido Republicano, foi indicado embaixador dos EUA no Brasil, mas ainda não obteve o chamado “agrément”, termo em francês para o aval que um Estado concede na admissão de um diplomata estrangeiro.
A presença chinesa na América do Sul
A China é hoje o principal parceiro comercial de Brasil, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai e Venezuela. A vasta presença chinesa na América do Sul representa um dos fatores para o rompante imperialista dos EUA depois de o governo Barack Obama ter decretado o fim da Doutrina Monroe, em 2013.
Na avaliação de Pomar, a interpretação de Trump para esse conjunto de princípios do século 19 não se trata de deturpação, mas um desdobramento.
“Os EUA temem perder o controle da Eurásia, não importa para quem: pode ser para a China, para a Rússia ou até para os próprios europeus. Assim, controlar o nosso continente é, para os EUA, uma espécie de seguro de vida. Como eles são uma potência perigosa, mas declinante, farão de tudo para nos manter acorrentados. Se não quisermos ir ao fundo junto com esse Titanic, vamos ter que manter distância”, analisa o diretor da FPA.
“Em 2018, o governo Temer foi pressionado por Washington, inclusive com a visita de assessores militares de Trump ao Brasil, para impedir que a empresa chinesa Huawei participasse do leilão da banda de telefonia 5G. A reação do agronegócio e das telefônicas clientes da Huawei impediu que tal pretensão se concretizasse. Além disso, abordando o tema por outro ângulo, se perguntássemos para as lideranças do agronegócio brasileiro se estariam dispostos a prescindir do mercado chinês, a resposta seria obviamente negativa”, pontua Vidigal.
A questão do CV e PCC
Em maio desse ano, o Departamento de Estado dos EUA decidiu classificar as organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas. A medida significa que as facções brasileiras ficam submetidas a regime jurídico e político severo, que altera as formas de enfrentamento, sanção e cooperação internacional.
“O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos. A ação de hoje, tomada pelo Departamento de Estado, demonstra ainda mais o compromisso inabalável do governo Trump em desmantelar cartéis e organizações criminosas em nossa região e garantir a segurança do povo americano”, afirma nota da Embaixada dos EUA em Brasília.
A legislação do Brasil, mais especificamente a Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/2016), que regulamenta o texto da Constituição de 1988, determina como crime de terrorismo, entretanto, atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito (raça, cor, etnia ou religião). O direito brasileiro enquadra CV e PCC como criminalidade organizada porque o objetivo dessas organizações é, essencialmente, obter lucro e controle territorial.
Na audiência da Câmara, o embaixador Celso Amorim manifestou preocupação com a decisão do Departamento de Estado dos EUA. Ele apontou como deveria se portar o Brasil na luta contra crime organizado e no alijamento da ingerência de Washington. “Combatendo os erros nós mesmos, não tendo que pedir a um estrangeiro vir aqui combater”, definiu.
“Ele tem que nos ajudar lá. Ele tem que ajudar impedindo que o Banco de Delaware sirva para que haja lavagem de dinheiro. Ele tem que nos ajudar impedindo que as exportações de armas de Miami sejam jogadas nas praias brasileiras”, prosseguiu Amorim.
O assessor de Lula completou lembrando à Comissão de Relações Exteriores que foram os governos do PT que mais investiram em defesa: “Não preciso dizer, é olhar lá. Foi nos últimos anos do governo Lula e os primeiros do governo Dilma”.








