Decisão de Flávio Dino, que deu aval à megaoperação de busca e apreensão da PF, aponta Mário Frias como “como agente central” de “uma única organização criminosa”, que também foi irrigada por dólares de Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deu aval à megaoperação de busca e apreensão desencadeada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (9), revela um elo entre as emendas destinadas pelo deputado Mário Frias à a empresária Karina Gama, dona da produtora GoUp, e a investigação que envolve Flávio Bolsonaro no caso Master, que está sob relatoria de André Mendonça na corte. O ponto de contato está na produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que aparece nas duas frentes de investigação.

A partir de elementos reunidos pela Polícia Federal, Dino concluiu que investigações que tramitavam separadamente — uma sobre emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e outra sobre movimentações financeiras envolvendo pessoas e empresas ligadas ao núcleo investigado — podem fazer parte de uma mesma estrutura criminosa.

“Não há dois esquemas distintos”, afirma o ministro. Em seguida, Dino aponta que “há fortes indícios de uma única organização criminosa, estruturada para captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas, na qual o Deputado Federal Mário Frias figura como agente central”.

Da investigação das emendas ao filme sobre Bolsonaro

A investigação que chegou ao ICB começou a partir da destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares de autoria de Mário Frias. O inquérito, que tem origem no orçamento secreto, está sob relatoria de Flávio Dino e motivou a ação da PF.

Segundo a decisão do ministro, os recursos foram destinados à entidade por meio de dois termos de fomento registrados no sistema federal de transferências.

Karina Ferreira da Gama aparece no material analisado pela PF como presidente do ICB e da Academia Nacional de Cultura (ANC), além de empresária ligada à produção de Dark Horse.

A decisão registra ainda sua proximidade política com Mário Frias e a prestação de serviços de uma empresa de sua propriedade para a campanha do deputado em 2022.

A produção do filme é feita pela Go Up Entertainment, empresa que aparece entre as atingidas pelas medidas determinadas por Dino, como a proibição de contratação por entidades públicas.

É nesse ponto que a investigação sobre o uso de emendas passa a tocar diretamente o universo de Dark Horse.

Segundo Dino, a análise financeira encontrou relações entre o ICB, empresas contratadas e pessoas ligadas ao núcleo investigado. O ministro fala em “inequívoca confusão patrimonial entre o ICB, as empresas contratadas e as pessoas físicas vinculadas ao núcleo investigado”.

Entre os elementos identificados estão “vínculos societários cruzados, identidade ou proximidade de sócios e administradores, empresas com faturamento declarado incompatível com os montantes efetivamente movimentados e sucessivas devoluções de recursos sem causa econômica aparente”.


Para Dino, essas circunstâncias “indicam, em tese, a utilização de pessoas jurídicas como instrumentos de circulação patrimonial e ocultação de valores.”

R$ 645 mil de Mário Frias para a produtora de Dark Horse

Um dos pontos mais sensíveis da decisão é a movimentação financeira envolvendo diretamente Mário Frias e a Go Up Entertainment. Segundo os dados analisados pela PF, Frias transferiu R$ 645,4 mil para a produtora de Dark Horse.

Dino considera a operação incompatível com a capacidade econômica conhecida do parlamentar. Para o ministro, o dado faz com que Frias “transcenda a condição de mero autor de emendas parlamentares posteriormente desviadas por terceiros” e passe a ser considerado “participante ativo da engrenagem financeira sob investigação”.


A decisão também descreve outras movimentações envolvendo empresas que receberam recursos do ICB e posteriormente transferiram dinheiro à Go Up. Entre elas está uma operação de R$ 750 mil da NTT Brasil para a produtora do filme.

Dino considera relevantes a proximidade temporal e os valores envolvidos, mas não afirma que o dinheiro transferido pela NTT tenha origem direta nos recursos recebidos do ICB.

A conexão com o caso Master

É justamente a Go Up Entertainment que coloca a investigação de Dino em contato com a apuração conduzida por André Mendonça sobre o caso Master.

Enquanto Dino analisa o caminho de recursos públicos destinados ao ICB e as movimentações entre as empresas ligadas ao núcleo investigado, Mendonça apura os recursos relacionados a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, destinados à produção de Dark Horse e o contexto da atuação de Flávio Bolsonaro.

Há informações relevantes sobre a atuação de Flávio Bolsonaro, incluindo o áudio em que ele cobra Vorcaro de parte dos 24 milhões de dólares que teriam sido prometidos ao clã, além de reuniões com o banqueiro após a primeira prisão, em novembro do ano passado. Mesmo assim, o caso sob relatoria de Mendonça não desencadeou operações contra o filho “01” de Jair Bolsonaro.

Segundo a PF, são duas investigações diferentes, mas que chegam ao mesmo ponto: o filme sobre Jair Bolsonaro e sua estrutura de produção.

A decisão de Dino não afirma que o dinheiro de Vorcaro tenha passado pelo ICB nem que os recursos das emendas tenham financiado o filme. O que ela revela é que a produtora de Dark Horse aparece no fluxo financeiro investigado a partir das emendas.

Essa intersecção ganha importância diante da própria conclusão de Dino de que os fatos inicialmente investigados em frentes distintas podem integrar uma única estrutura.

O ministro afirma que “a conexão probatória é manifesta, assim como a coincidência subjetiva dos investigados e a convergência dos fatos apurados”.

E alerta que “o fracionamento da investigação compromete a adequada compreensão da dinâmica global dos acontecimentos, dificulta a produção de prova e favorece a formação de visões parciais acerca de uma mesma estrutura criminosa”.


Em síntese, Dino defende que as duas investigações devem ser unificadas por tratarem da atuação de uma mesma organização criminosa com o mesmo fim.

A cronologia que desemboca na crise do STF

A sequência dos acontecimentos ajuda a dimensionar a crise no Supremo Tribunal Federal, que desencadeou no embate entre Dino e Mendonça sobre a tentativa de afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal.

Em 1º de junho de 2026, a Polícia Civil de São Paulo cumpriu mandados de busca e apreensão no núcleo investigado. A investigação paulista apurava, entre outros fatos, o contrato de cerca de R$ 108 milhões firmado pelo ICB com a Prefeitura de São Paulo.

Em 9 de julho, a Polícia Federal pediu acesso às provas obtidas pela polícia paulista. O compartilhamento foi autorizado em 21 de agosto.

A partir dos elementos compartilhados, a PF passou a sustentar a conexão entre as duas frentes.

Em 3 de setembro, Dino assinou a decisão que autorizou as medidas e concluiu que havia “fortes indícios de uma única organização criminosa”, colocando Mário Frias como “agente central”.

Na quinta-feira, 9 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a megaoperação autorizada pelo ministro.

No mesmo período, a crise entre ministros do STF se aprofundava por causa da investigação do Banco Master.

Na terça-feira (8), André Mendonça havia determinado o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, no âmbito da investigação do caso Master.

No dia seguinte, 9 de setembro, Dino determinou a reintegração dos dois.

Ao justificar a decisão, Dino afirmou que uma mudança abrupta na direção da PF poderia comprometer investigações em andamento.

“Em área de tamanha sensibilidade institucional, a abrupta substituição da direção possui aptidão para comprometer a continuidade dos trabalhos, os fluxos de informação e o tempestivo cumprimento de determinações judiciais”, defendeu em sua decisão.

A preocupação de Dino ganha dimensão quando confrontada com a sentença que deu aval à operação contra Mário Frias e Karina Gama. Segundo o ministro, “parte relevante da prova procurada sequer existia ou não era conhecida quando da busca realizada em junho de 2026”.

Na avaliação de Dino, a manutenção de investigações paralelas também poderia provocar “inevitável atraso no acesso à prova produzida” e gerar “risco concreto de duplicidade de diligências, desperdício de recursos investigativos e adoção de medidas potencialmente conflitantes em relação aos mesmos investigados e aos mesmos fatos”.

Foi nesse contexto que a disputa sobre o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal passou a atingir diretamente duas investigações com pontos de contato: a apuração das emendas destinadas ao ICB e a investigação sobre o Banco Master e os recursos relacionados a *Dark Horse*.

O conflito entre as decisões de Mendonça e Dino acabou chegando ao presidente do STF, Edson Fachin, que suspendeu posteriormente as medidas tomadas pelos dois ministros.

Investigação pode alcançar outros agentes públicos

A decisão de Dino também indica que a apuração não está restrita aos nomes que já aparecem no núcleo investigado.

Ao autorizar as medidas, o ministro afirma que a análise dos elementos apreendidos deverá permitir identificar “a contribuição de outros indivíduos com as práticas delitivas, inclusive de outros agentes públicos”.

Dino determinou ainda a suspensão das atividades econômicas e financeiras do ICB e da ANC e proibiu 22 empresas de licitar ou contratar com o Poder Público. Entre as empresas atingidas está a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.

A decisão também menciona indícios de que o sistema investigado possa ter dimensão interestadual, citando “indícios de que se cuida de um só sistema delitivo, alimentado inclusive por emendas parlamentares federais” e que há “menção a atos interligados até com a facção criminosa PCC”.

Segundo Dino, isso “pode significar uma dimensão interestadual, a recomendar a atuação da Polícia Federal”. Ou seja, há possibilidade de que parlamentares de outros estados tenham participado do esquema, destinando emendas para o suposto esquema criminoso.

A investigação, portanto, ainda está em andamento e poderá avançar sobre outros envolvidos.

O que a decisão de Dino acrescenta ao caso Master é um novo caminho documental que chega à mesma produção cinematográfica investigada por Mendonça. De um lado, estão os recursos públicos das emendas e a rede formada em torno do ICB. De outro, os recursos relacionados a Daniel Vorcaro e a atuação de Flávio Bolsonaro investigados no caso Master. No meio dos dois caminhos está Dark Horse.

Leia a íntegra da decisão de Flávio Dino que autorizou ação da PF contra Mário Frias

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