Mulheres pretas de Belém elaboram políticas públicas específicas

O apelo por políticas públicas específicas às mulheres pretas ecoou no Memorial dos Povos.

“Sou uma negra que já passou por quase todos os processos de discriminação que a pessoa negra passa desde criança e tive consciência disso logo cedo, porque minha mãe falava com a gente sobre o racismo”. A declaração é da coordenadora de Projetos do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa), Nilma Bentes, ativista histórica pela luta do movimento dos homens e mulheres negras em Belém e no Pará desde a década de 1980.

O relato dela é a demonstração da história de muitas mulheres negras, que se encontram nas casas e nas ruas da capital paraense, que sofreram ou sofrem preconceito racial, mas que se calam por causa da opressão de uma cultura histórica há séculos existente no Brasil.

Por isso, não é à toa que na abertura da programação especial, alusiva ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado no dia 25 de julho, Nilma Bentes foi convidada especial para falar sobre o tema “Protagonismo das mulheres negras na história de Belém”.

O evento segue até a próxima sexta-feira, 23, no Memorial dos Povos, na Av. Governador José Malcher, com a participação de personalidades negras, fazendo análise de conjuntura sobre a presença da mulher negra em todas as áreas, na perspectiva de construir um documento de políticas públicas voltado às mulheres negras que vivem na capital paraense.

A realização é da Prefeitura Municipal de Belém, por meio da Coordenadoria da Mulher de Belém (Combel) e Coordenadoria Antirracista de Belém (Coant).

Políticas específicas para contemplar população negra

Segundo a titular da Coant, Elza Fátima Rodrigues, é importante ampliar um debate específico sobre as mulheres pretas. “Isso, porque é comum pensar que a toda política pública que atende a população, automaticamente atende a população negra, por ser mais vulnerável. Porém, as políticas universalistas não dão conta da especificidade da questão negra, por causa do racismo institucional construída a partir da visão do estado, que não visa características específicas por conta da pele”, ressalta.

A coordenadora da Combel, Lívia Andrade, explica que no dia a dia há toda uma política pública voltada para as mulheres de Belém, que respondem pela maioria da população belenense. No julho das pretas, a Combel faz um trabalho intersetorial, cuja compreensão é trabalhar em parceria com todos os órgãos da prefeitura, “porque cuidar integralmente das mulheres é garantir que se tenha acesso à saúde integral, à educação, ao trabalho, renda e habitação, ou seja, a todos os setores. Quando se trata das mulheres negras, trabalha-se também com todos os serviços, lembrando que o conjunto de mulheres não é homogêneo, que a identidade mulher é diversa e que existem necessidades específicas”.

Documento político – O apelo por políticas públicas específicas às mulheres pretas ecoou no Memorial dos Povos. A coordenadora de Comunicação da Prefeitura de Belém, Keyla Negrão, ressaltou a necessidade do momento servir para se discutir políticas, garantia de direitos, com o compromisso de ser construído até o final do evento um documento que busque melhorias nas áreas da saúde, educação, segurança e outros temas focados na mulher negra. “Que esse documento saia daqui de mãos dadas com o Governo da Nossa Gente e das manas pretas da nossa sociedade de Belém”, enfatizou.

A contribuição da fundadora do Instituto Viver Periferia, Leila Palheta, é que o debate seja estendido para chegar às periferias, considerando que “precisa levar para os bairros, porque é lá que estão as mulheres que queremos atingir”. O Viver Periferia é uma organização sem fins lucrativos, que atua pelo direito às políticas públicas para a população das periferias.

Até sexta-feira, a programação segue no período da manhã e à tarde com muitos debates, atração cultural e exposições. Uma das atrações é a Feirinha das Pretas, com artesanatos exclusivos e carregados com todo simbolismo produzido pelas mulheres afrodescendentes.

Entre elas, Maria Luiza Nunes, do coletivo das Mulheres Negras, herdeiras de suas ancestrais que remendaram tecidos, trabalharam com barro e argila. Para ela, o Dia da Mulher Negra é todos os dias, “porque o dia que elas pararem não terá mão-de-obra especializada nem desvalorizada nos comércios e nas casas”. Segundo ela, a data surge para dar visibilidade, mostrar que essas mulheres existem e que estão em diferentes espaços, ganhando menos que outras mulheres brancas e dos homens.

Histórico

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha nasceu em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras, na República Dominicana. No Brasil, a data celebra também o Dia Nacional de Tereza de Benguela, que foi uma líder quilombola de destaque, que resistiu à escravidão, lutando pela comunidade negra e indígena que vivia sob sua liderança, ao longo de duas décadas, no século XVIII.

Além de comemorar a data, o evento também irá homenagear grandes mulheres negras do Brasil representadas por Tereza de Benguela; Lélia Gonzalez; Sueli Carneiro; Zélia Amador de Deus e Nilma Bentes.

Programação

Uma vasta programação que envolve seminários sobre saúde, educação, racismo, segurança e direitos integrará o evento. E ainda terá serviços de emissão de documentos, testagem para detecção da covid-19 por meio do PCR e coleta para doação de sangue. O público em geral poderá participar, mas as vagas são limitadas por causa das medidas de segurança da covid-19. O evento terá capacidade apenas para 60 pessoas durante os três dias.

Nesta quinta-feira, 22
09:00 – Abertura
10:00 às 12:00 – Mesa: Mulheres Negras e o Acesso ao Sistema de Justiça
Mediadora: Bianca Santos
Convidadas: Rosemary Reis, Maria de Lourdes Nascimento, Samara Siqueira, Leila Rosa Palheta
14:00 – Abertura
14:15 – Intervenção “Senhora do Congo” por Cassandra Bonifácio
15:00 às 17:00 – Mesa: Educação e Racismo – Representatividades
Mediadora: Lívia Noronha
Convidadas: Zélia Amador de Deus, Sinara Dias, Tarsila Amoras, Shirlene Coelho, Patrícia Cordeiro, Erika América
23/07 (Sexta-feira)
9:00 – Abertura
Início dos serviços Sesma, Funpapa e Hemopa
Feirinha das Pretas
Oficinas: Turbantes; Texturização e finalização de cabelos;
14:00 – Abertura
14:15 – Fala das Secretarias, Coordenadorias, Movimentos Sociais e Prefeito
15:00 – Abertura da Exposição “Mulheres Negras e Ancestralidades: Nossas histórias vêm de longe”
15:45 – Roda de Afeto por Angélica Albuquerque + Mariana Raiol;
16:00 – Rock das Pretas – Ruth Costa, Jenni Velozo e Dabruxa Clã.

Por Edna Nunes – Agência Belém
Foto: Joyce Ferreira – Comus

Deixe uma resposta