Luiz Araújo: “Coerência com a gravidade do momento”

“Não há nenhum caminho tranquilizador à nossa espera. Se o queremos, teremos de construí-lo com as nossas mãos.” (Saramago)

Luiz Araújo – Diante de um grande desafio, nosso partido acertou em que caminho deveria trilhar. Ao decidir apoiar a candidatura de Lula, já no primeiro turno, apostando na unidade da esquerda, fomos coerentes com o diagnóstico da gravidade da situação vivenciada pelo país. A constituição de uma ampla frente de esquerda e sua ampliação para outros setores democráticos não foi um caminho fácil de escolher, mas o único caminho possível para enfrentar um governo de extrema-direita que, para se manter no poder, usou de maneira escandalosa a máquina pública e patrocinou atos que atentaram contra a frágil democracia brasileira.

E a campanha mostrou um alto engajamento do partido na construção dessa vitória. Não só na campanha nacional, mas também com importantes gestos estaduais, como vimos na retirada da candidatura de Boulos ao governo estadual de São Paulo e a composição feita o Rio Grande do Sul. No segundo turno nossa militância foi decisiva para consolidar a vitória.

A vitória de Lula, no segundo turno, com pequena margem de votos e a força que a extrema direita demonstrou, por si só já comprava o quão acertada foi nossa decisão e anuncia que a tarefa de extirpar o perigo do bolsonarismo ainda levará um tempo para ser conseguido.

No dia 17 de dezembro o Diretório Nacional do PSOL de debruçará sobre duas decisões que, caso a coerência fosse nossa conselheira, nem deveriam estar dividindo nossas fileiras.

A primeira diz respeito a que posição teremos diante do governo que acabamos de ajudar a eleger. Coerentes com a postura sectária anterior, os setores que foram contrários a apoiar Lula no primeiro turno, apresentam a proposta de sermos “independentes”. E, a maioria do partido, principalmente sua militância de base e milhões de eleitores que se referenciaram no partido e elegeram nossos parlamentares, esperam que tenhamos coerência e sejamos a parte mais à esquerda da base parlamentar do governo e que ajudemos a dar sustentação ao cumprimento das promessas de campanha.

Diferente de 2005, quando ao fundarmos o PSOL, o debate era sobre os limites da experiência petista, hoje o debate é sobre apoiar ou não um governo de esquerda, eleito por uma frente ampla, para desmontar os malefícios feitos pelo governo de direita, retomando conquistas que perdemos. O governo Bolsonaro nos fez retroagir pelo menos vinte anos na disputa política no país. Ser independente é flertar com a oposição ao governo e, sinceramente, o lugar da oposição já está ocupado e considero desastrosa qualquer proximidade com esse polo político. Foi para desmontá-lo que apoiamos Lula.

Que ganho político teremos como partido nos negando a tarefa de influenciar o governo que acabamos de eleger? Será que enxergamos esse governo Lula como repetição das condições políticas vivenciadas em 2002?

O Caminho coerente é compor a base social do governo, buscar influenciá-lo, interagir com a base social quer viu nosso gesto com enorme simpatia e depositou no PSOL a tarefa de cobrar, por dentro do governo e de sua base, o cumprimento das promessas de retomada dos programas sociais, do enfrentamento sem trégua aos ditames conservadores.

Aparentemente resolvendo a primeira polêmica estaria resolvida a segunda. Há quem queira fazer parte da base do governo, mas que ache equivocado participar de cargos no governo. Algo assim, aceita o ônus de apoiar o governo, mas acha perigoso o bônus de fazer parte do governo. É uma polêmica que até é difícil de explicar para nossos eleitores.

Alguns consideram melhor não ocupar cargos para que não ocorra uma degeneração ou algo semelhante. Bem, a degeneração política e ética sempre é um risco, participando do governo e, inclusive, do parlamento. Mas, se isso fosse verdade, por que disputamos governos municipais e estaduais? Se o problema é a companhia, por que ajudamos a eleger Lulas se estávamos receosos que o mesmo levaria militantes nossos para este caminho? E por que compusemos com o PT no Rio Grande do Sul, situação que poderia ter nos levado a ser governo, neste caso não comporíamos o governo que seriamos vice?

Hoje governamos a única capital nas mãos da esquerda, a cidade de Belém. A vitória foi fruto de uma frente de esquerda, o vice prefeito é do PT, várias secretarias são de partidos aliados. E não fomos contaminados ou ocorreu uma degeneração. Trabalhamos com afinco e dentro dos limites de governar uma cidade pobre e sem dinheiro, partilhando o ônus e bônus de ser governo dentro do capitalismo.

Outros consideram mais fácil divergir não estando em cargos do governo. Divergir do governo à esquerda em momento de forte polarização com a extrema-direita será um dilema estando no governo ou não, estando somente no parlamento ou compondo o primeiro escalão do governo. A direita fará uma oposição à quente, com atos radicalizados, não dará trégua ao novo governo. A conjuntura não é mesma de 2002, é preciso repetir várias vezes algo óbvio.

E, por fim, existe um desejo subterrâneo, escondido do debate. Talvez o problema seja que forças políticas internas irão compor o governo. É um cálculo que mira como sempre a disputa pelo aparelho partidário, eternamente ameaçado de destruição e degeneração. Desde que a correlação de forças se alterou para uma visão mais arejada de partido que se esbraveja que tal decisão levará o partido a sua destruição, ano após ano, congresso após congresso, eleição após eleição. E estamos mais fortes, mais reconhecidos pelos que votam na esquerda, o partido se tornou o local de encontro de centenas de novos militantes e temos levado nosso programa a mais lugares e pessoas. Nessa conjuntura, em especial, não há caminho tranquilizador. E, como nos ensinou Saramago, se quisermos construí-lo, teremos que arriscar, apoiar o governo, influenciar seus rumos, viver suas contradições, sempre com um olho no nosso programa de medidas apresentados quando da coligação e outro nos interesses das classes trabalhadoras.

Belém, 12.12.2022

Luiz Araújo
Presidente Nacional do PSOL (2013 a 2017)
Presidente do INEP no primeiro governo Lula
Secretário de Educação de Belém no primeiro governo Edmilson
Secretário Municipal de Controle, Integridade e Transparência de Belém na atual gestão do Edmilson

Uma resposta para “Luiz Araújo: “Coerência com a gravidade do momento””

  1. Texto de muita coerência. Estamos juntos para derrotar o fascismo e o governo precisa das forças de esquerda unidas.

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