Seminário em Belém protagoniza povos indígenas e negros na Amazônia

O seminário sobre povos indígenas e negros ocorre no auditório da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) até esta quarta-feira, 25 (Créditos: João Gomes/ Comus/ PMB)

A Prefeitura de Belém cumpre mais um compromisso com a valorização de povos historicamente excluídos na Amazônia, dando início, na manhã desta terça-feira, 24, ao seminário (Re)alianças cabanas: história e memória dos povos indígenas e negros na grande revolução amazônica – 1835-2023. O evento ocorre no auditório da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap).

A programação de estende até esta quarta-feira, 25, e é uma realização da Coordenadoria Antirracista de Belém (Coant), da Secretaria Municipal de Administração (Sead) e da Universidade Livre da Amazônia (Ulam), como parte das comemorações dos 407 anos da capital paraense, celebrado dia 12 de janeiro. Apoiam a atividade a Ouvidoria do Município de Belém; a Secretaria de Meio Ambiente de Belém; e a Coordenadoria de Educação Escolar Indígena.

A palestrante do dia, nesta terça-feira, foi a historiadora Magda Ricci (UFPA).

Ancestralidade

Durante a mesa de abertura, Kwarahy Tenetehar, do povo Wyka Kwara, lembrou que os povos indígenas não estão extintos. “Eles estão descentralizados na sua organização social”, disse ele. “Já perderam suas línguas, seus cantos, seus rezos, sua maneira de preparar os alimentos e de se organizar socialmente, mas esse povo não está extinto. Ele está em você, que tem ancestralidade indígena, que tem uma bisavó, que tem um bisavô, que tem 1% de DNA de povos ameríndios”.

Ailton Seabra Borges, da Associação de Discentes Quilombolas da UFPA, concorda. “O 1%, como nosso companheiro falou, carrega ancestralidade. E essa luta é nossa, não é individualista, é uma luta coletiva. Estamos aqui pra dialogar sobre isso e levar pro mundo que ainda existem negros resistentes”, ressalta.

O vice-prefeito de Belém, Edilson Moura, garante que “estamos numa Prefeitura que tem os olhares direcionados para todos que precisam de políticas públicas”.

Para a secretária Municipal de Administração (Semad), Jurandir Novaes, “o futuro que vem aí está nas nossas mãos, na nossa capacidade de resistência, seja dentro de um governo, seja em outros lugares”.

Narrativas

Coordenadora Antirracista de Belém, Elza Rodrigues explica que “dentro desta perspectiva de um seminário com estudos, pesquisas, dissertações, investigações e teses de doutorado, ele contribui para a quebra de um paradigma centrado apenas em uma narrativa. Por isso, é necessário termos esse tipo de estudos com outras narrativas, para contribuir com a visibilidade dessas populações, pois esses grupos, historicamente, estão invisibilizados na história oficial da sociedade brasileira. Outro aspecto relevante é que, além de ter professores doutores, vamos ter uma nova geração de pesquisadores mostrando suas pesquisas, como jovens quilombolas, indígenas e negros”, destacou Elza.

Apagamentos

A mesa seguinte contou com a participação do historiador José Alves de Souza Junior (UFPA). Ele lembra que alguns estudos mostram ter havido, na Amazônia, “uma população de aproximadamente 2 milhões de índios, divididos da seguinte forma: nos 98% de planície, você tinha uma população de um milhão e 150 mil índios. E na várzea, 2% da região, você tinha uma população de aproximadamente 850 mil índios. Uma população extremamente numerosa, o que explica a importância fundamental do trabalho indígena para que a colonização se firmasse e, consequentemente, penetrasse no território. Esses dados foram apresentados na década de 40 do século XX. Em 1992, já se aponta uma população indígena pra Amazônia de 5 milhões de pessoas. Vejam a disparidade numérica e como é difícil estabelecer a população indígena da Amazônia antes da chegada dos portugueses”, pontua José Alves.

Junto com ele, esteva a artista, curadora e pesquisadora Moara Tupinambá, formada em Comunicação Social (UFPA) e atual presidente da Associação Multiétnica Wyka Kwara. Dentre outras coisas, Moara destaca: “Uma coisa que não é muito falada e a gente precisa falar nas escolas e comentar é sobre 1757, quando aconteceu a República Pombalina, quando o Marquês de Pombal proibiu a escravização indígena, porém tornou obrigatório o uso do idioma oficial, o português. É possível entender como funcionou a lógica de apagamento da nossa identidade a partir desse documento”.

Programação

Quarta-feira (25):
9h – Saudando nossa ancestralidade;
9h15 – Mostra de vídeo: Belém Rebelde, de Célia Maracajá;
9h45 – 1° Mesa: Registros documentais da Cabanagem no Arquivo Público do Estado do Pará, com o historiador e especialista em patrimônio público e cultural Leonardo Torri;
10h15 – 2 Mesa: Histórico e formação sociocultural do território quilombola de Sucurijucuara, com a antropóloga e presidenta da Associação da Comunidade Quilombola de Sucurijucuara, Roberta Maria Barbosa do Vale;
10h45 – 3 Mesa: Apagamentos e complexidades da presença indígena na Cabanagem, com o engenheiro agrônomo e educador ambiental Poraquê Munduruku;
11h15 – 4 Mesa: Mulheres indígenas. O protagonismo, lutas, resistência e o período da Cabanagem. Com a participação da escritora e geógrafa Marcia Kambeba;
11h45 – Debates, resoluções e encaminhamentos.

Texto: Erika Morhy, via Agência Belém

Deixe uma resposta