Vereadora Marinor Brito. Foto: Divulgação.

Por Marinor Brito

Na recente entrevista concedida ao Jornal Liberal, o prefeito de Belém, Igor Normando, usou uma palavra como fio condutor de sua narrativa: ordem. Ordem no trânsito, ordem nas calçadas, ordem no comércio informal. O discurso soa familiar. A cidade estaria “desarrumada”. Um diagnóstico genérico que não inova nem aprofunda. Para arrumá-la, o prefeito promete duas armas: educação e fiscalização severa.

O problema é que o equilíbrio entre esses dois vetores está visivelmente descompensado. A promessa de uma gestão pedagógica se perde diante do tom bélico adotado pelo próprio prefeito: “estamos em guerra”, afirmou, como quem veste uma farda e não um cargo eletivo. A solução apresentada? Multas, punições, repressão, todas executadas pela Guarda Municipal, cuja função constitucional é proteção e não coerção.

Há ecos evidentes de um autoritarismo clássico, que remete aos tempos em que a ordem pública era mantida à base do cassetete e da humilhação dos mais pobres. Ao associar “ordem” à “impopularidade necessária”, Normando tenta revestir sua gestão com um verniz de coragem política, quando na verdade revela seu desprezo pela complexidade social de Belém.

E é aqui que a retórica do “gestor técnico” tropeça na realidade política. A cidade está inserida num calendário político incontornável: 2026 será ano de eleição geral, e a capital paraense é peça-chave no tabuleiro do clã Barbalho. O governador Helder, primo e tutor de Igor, já se movimenta para disputar uma vaga ao Senado. E a vice-governadora Hana Ghassan, que carece de apelo popular, deverá herdar a difícil missão de sucedê-lo no Palácio dos Despachos.

Nesse cenário, como sustentar um projeto que impõe sacrifícios à maioria pobre da cidade e ainda convertê-lo em ativo eleitoral em tão pouco tempo? Como transformar fiscalização truculenta e medidas antipopulares em votos? A resposta talvez esteja no próprio erro de concepção: tratar Belém como um quartel a ser disciplinado, e não como um corpo vivo que exige diálogo, inclusão e políticas públicas estruturantes.

Ao fim, a entrevista de Igor Normando revela menos um plano de cidade e mais uma cartilha de poder. Uma cartilha que aposta na repressão em nome da “ordem” e no silêncio diante das contradições de um grupo político que, embora pretenda se perpetuar, se distancia a passos largos da realidade cotidiana da população belenense.
Se há algo desarrumado, é a relação entre poder e povo, e esta nem a multa mais alta resolverá.

*Marinor é Vereadora de Belém do Pará. 

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