O Master pretendia ser salvo com recursos públicos. Não será dessa vez – Foto: Divulgação

Por Aldenor Jr

O BC desautorizou a polêmica compra do Banco Master pelo BRB, banco controlado pelo governo do MDB do DF, mesmo diante dos ataques que o Centrão articulou na tentativa de arrancar uma decisão favorável

“O que é roubar um banco comparado com fundar um banco?”
Bertold Brecht

Enquanto os olhos do país estavam grudados no julgamento de Bolsonaro e demais líderes golpistas, intensas articulações avançavam no Congresso para salvar o maior escândalo financeiro da década: a suspeitíssima compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), com seus bilhões em papéis podres e suas malcheirosas relações com políticos e – pasmem – e também com fortes indícios de ter elos com o mundo do crime, como revelado pela Operação Carbono Oculto. Nessa manobra, claro, não poderia falta a digital do Centrão, amontoado que reúne os mais espertos parlamentares que já se viu no parlamento brasileiro.

A chantagem explícita tinha como alvo o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central, Renato Dias Gomes, que há meses questiona a operação de salvamento do Master, um banco cujo crescimento meteórico já levantara muitas suspeitas, bem antes de se descobrir suas estranhas relações com fundos ligados com a mega lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), desde que a PF e a Receita, pela primeira vez, bateram na porta dos engravatados da Faria Lima, na quinta-feira, 28 de agosto. Esta ação provocou um verdadeiro terremoto entre os operadores do mercado financeiro, além de jogar luz sobre a higidez da carteira de vários fundos e instituições bancárias. Nada menos que R$ 1,2 bilhões em CDBs do Master estavam na carteira da Reag Investimentos, uma das financeiras mais enroladas no esquema criminoso desbaratado na maior operação contra a lavagem de dinheiro do crime organizados de todos os tempos. E pode vir muito mais descobertas à medida em que o trabalho policial se aprofunde.

Porém, o tiro saiu pela culatra. No final do expediente de ontem, 3, o BC desautorizou a compra do Master, uma jogada que envolveria quase 25 bilhões do BRB, banco estatal cuja direção é subordinada ao governador Ibaneis Rocha, do MDB. Esse valor astronômico já foi quase o dobro no início das tratativas de aquisição, mas foi sofrendo reduções sucessivas por pressão das autoridades monetárias, que suspeitaram das muitas inconsistências no balanço do Master, instituição conhecida pela agressividade e, agora se sabe, por suspeitíssimas relações.

Afinal, como explicar o verdadeiro milagre que fez o Master, fundado em 2019, saltar de um patrimônio líquido de apenas 219 milhões para 5 bilhões de reais, em apenas cinco anos. Da mesma forma, o controlador do banco, o jovem bilionário Daniel Bueno Vorcaro, de apenas 41 anos, é detentor de um perfil que deveria causar escândalo, mas que se perde na paisagem permissiva onde as artimanhas com dinheiro alheio multiplicam fortunas em escala alucinante. Segundo apuração da revista Piauí, Vorcaro é dado a ostentações: viajava num jato próprio de 80 milhões e comprou uma das mansões mais caras do país, em Troncoso, na Bahia, por 280 milhões. Tudo isso, agora se sabe, pode ter um pé em negócios escusos.

Qual o interesse do Centrão, para além do apetite desmesurado que caracteriza seus cardeais, sempre dispostos a embarcar em jogadas arriscadas desde que lucrativas? O senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, por exemplo, precisou se desdobrar diante do surgimento de uma testemunha, ouvida pela PF, que afirma ter presenciado o envio de uma grande quantia, em agosto do ano passado, despachada pelos dois principais acusados de liderar o esquema do PCC na área dos combustíveis, Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, ambos, aliás, atualmente foragidos e caçados pela Interpol. A negativa foi enfática, com direito a expor na Internet os dados pessoais do repórter do Portal ICL – que publicou a matéria com exclusividade – num gesto de truculência bem típica dos que dão as cartas no Congresso Nacional.

A semente da dúvida, porém, foi plantada: será que os cardeais da direita atravessaram o Rubicão e já estabeleceram relações carnais com os cabeças de um dos braços do PCC, a maior organização criminosa em operação no país?
O certo é que o avanço das investigações na esteira da Carbono Oculto possui enorme potencial de tirar o sono de muita gente graúda. Quem viver, verá.

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