Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Enquanto a violência no Rio de Janeiro volta ao debate nacional, depois da desastrosa operação realizada pelo governo de Cláudio Castro (PL), sem planejamento, nem inteligência, nem cooperação com o governo federal, uma outra ação, da Polícia Federal em São Paulo contra outra facção, mostra que há outros caminhos para enfrentar a violência pública e o crime no país.
“A operação de hoje mostra que o Rio continua preso a uma lógica dos anos 1980/90. Ainda enfrentamos o crime com mesmo espetáculo bélico e improviso – não com política pública, estratégia ou inteligência. Resultado? Droga mais barata, mais acessível, mais pura – facções mais fortes. Enquanto isso, a PF mostrou outro caminho: a operação Carbono Oculto deu um prejuízo enorme no PCC sem disparar um tiro. Sem sacrificar a vida de um agente sequer. Operação inteligente fere o coração da ilegalidade: o dinheiro”, a afirmação é da estudiosa em segurança pública e jornalista carioca, Cecília Oliveira.
Até a manhã desta quarta-feira (29), mais de 50 corpos foram levados pela população à uma praça do bairro da Penha, uma imagem de barbárie, totalizando 128 mortos, entre agentes da segurança pública e inocentes. Cecília, que é autora do livro “Como Nasce um Miliciano” e diretora do instituto Fogo Cruzado ainda lembra que o custo civil, como moradores feridos e casas destruídas, escolas e postos de saúde fechados, o prejuízo econômico gerado pelo comércio e empresas fechadas diante do caos gerado na cidade – depois da previsível reação do crime organizado – nunca são contabilizados pelo governo.
“Operações assim não enfraquecem o crime – reorganizam o poder. Como falo no meu livro – Como nasce um miliciano -, elas reforçam a autoridade ilusória do Estado e consolidam novas alianças. Servem para “regular excessos”, impondo limites quando grupos armados ultrapassam acordos. Eficácia contra o crime exige outra lógica: atacar fluxos financeiros e patrimoniais, fortalecer corregedorias independentes, combater a corrupção dentro do Estado. Sem isso, as ações apenas deslocam a violência e alimentam o ciclo de poder entre crime, política e polícia”, completa a jornalista.
Favelas e ONGS se manifestam sobre mortes no Rio: “segurança não se faz com sangue”
Uma nota conjunta de 27 organizações da sociedade civil critica a operação que é considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro. Antes dela, a operação de 2021 no Jacarezinho deixou 27 civis mortos.
Segundo as organizações, “segurança pública não se faz com sangue” e os resultados da operação desta terça-feira expõem “o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado”.
O texto diz ainda que, ao longo dos quase 40 anos de vigência da Constituição Federal, as favelas fluminenses têm visto a consolidação de uma política de segurança baseada no uso da força e da morte, travestida de “guerra” ou “resistência à criminalidade”. As ações seriam atuação seletiva, dirigida contra populações negras e empobrecidas.
Além de não haver sinais de que as ações reduzam o poder das facções criminosas, geram insegurança e medo na população e interrompem o cotidianos de milhares de famílias. A morte não pode ser tratada como política pública, dizem as entidades.
“O que se testemunha hoje é o colapso de qualquer compromisso com a legalidade e os direitos humanos: o Estado substitui a segurança pública baseada em direitos por ações militares de grande escala. Sob o pretexto da ‘guerra às drogas’, instala-se um estado de insegurança permanente, voltado contra a população negra e pobre das favelas. Não há justificativa para que uma política estatal, supostamente voltada à proteção da sociedade, continue a ser conduzida a partir do derramamento de sangue”, diz trecho do comunicado.
Assinam o texto, as entidades Anistia Internacional Brasil, Justiça Global, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC, Conectas Direitos Humanos, Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL, Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão, Redes da Maré, Instituto de Estudos da Religião — ISER, Observatório de Favelas, Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP), Movimento Unidos dos Camelôs, Grupo Tortura Nunca Mais — RJ, Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro, CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH, Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial, Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ, Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC, Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa — Amparar, Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP, Instituto Sou da Paz, Rede Justiça Criminal, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ, Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Casa Fluminense e Plataforma Justa.








