Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Por Aldenor Junior

Engana-se quem imagina que o Comando Vermelho (CV) amanheceu mais fraco após a criminosa operação das polícias do Rio nas favelas da Zona Norte, que deixou um rastro de mais de 100 mortos, no mais novo recorde do genocídio continuado contra a população pobre, preta e favelada.

O morticínio não foi fruto do acaso e do despreparo, muito embora a incapacidade operacional do necrosado aparato de segurança do Estado do Rio de Janeiro seja de conhecimento de todos. A megaoperação policial decorreu de um cálculo político do bolsonarismo, força dominante há anos e que se retroalimenta da chamada “guerra às drogas”. Tratou-se de provocar um banho de sangue e, no curto e médio prazo, colher dividendos eleitorais. Daí a declaração mentirosa do governador Cláudio Castro acusando o governo federal de negar apoio quando nunca houvera o pedido às forças federais, fato que teve de admitir no final do dia quando sua mentira já havia causado o efeito desejado.

Sobre a enorme pilha de corpos fuzilados (vários assassinados à sangue frio após a ocorrência de mortes dentre as tropas policiais), reina um silêncio cúmplice de parte da mídia. Esses mortos parecem não ter nome e nem história. São números frios de uma escalada que não dá sinais de arrefecimento. Muito ao contrário, o que está no horizonte é um novo patamar da barbárie que se mantém há décadas.

Fica a lição amarga: não se combate o crime organizado invadindo comunidades e matando indiscriminadamente. Se essa tese fosse verdadeira, há muito as comunidades do Rio seriam os locais mais seguros do mundo. As facções criminosas podem e devem ser desarticuladas e isso somente é possível com o bom uso de ações de inteligência, que mirem o coração financeiro dessas organizações criminosas, há bastante tempo transformadas em potências econômicas transnacionais. A operação Carbono Oculto, que trocou as vielas das comunidades empobrecidas pelos arranha-céus espelhados da Faria Lima é um exemplo recente do que deve ser feito.

O resto, desgraçadamente, é o macabro espetáculo da necropolítica e sua interminável fila de homens mortos.

*Aldenor Junior é jornalista.

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