Belém (PA), 13/11/2025 – Lideranças extrativistas e apoiadores usando porangas na cabeça, participam da marcha “Porangaço dos Povos da Floresta”, evento paralelo à COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Por Willys Lins

A COP-30 em Belém tem desempenhado um papel que vai além das negociações técnicas e dos compromissos formais. Ela tem revelado a complexidade de um país que ainda hesita em reconhecer a Amazônia como centro legítimo de produção cultural, política e ambiental. Antes mesmo de o evento começar, emergiram críticas que beiravam a xenofobia, embaladas por previsões de fracasso e desinformação. Belém, diziam, não estaria pronta.

Mas, a realidade mostrou outra história.

Delegações internacionais têm se encantado com a cidade, com seu povo acolhedor, com a vida cultural intensa e até com a chuva da tarde — um espetáculo cotidiano que parece assinar presença na conferência com a mesma pontualidade dos debates oficiais. A gastronomia, reconhecida pela UNESCO desde 2015 como patrimônio criativo, tornou-se ponto de encontro obrigatório, revelando sabores ancestrais que impressionam até os viajantes mais experientes.

Esse protagonismo não surgiu por acaso. Entre 2021 e 2024, a administração municipal de Belém consolidou políticas públicas que permitiram o florescimento da culinária ancestral da cidade. Os oito festivais gastronômicos realizados nas orlas, promovidos pela Prefeitura, formaram e capacitaram milhares de empreendedores, fortalecendo cadeias produtivas e criando empregos. Hoje, o resultado é uma economia criativa sólida, conectada à agricultura familiar, à pesca artesanal e às tradições indígenas que moldam a identidade amazônica. Espaços privilegiados foram recuperados como a Feira de Ver-O-Peso e o suntuoso e magnífico Mercado de São Brás, requalificado e entregue à população em dezembro de 2024.

Mas a principal mensagem da COP-30 não veio das salas fechadas. Veio das ruas, dos territórios, das vozes que historicamente foram ignoradas.

Durante a conferência, a ancestralidade, a juventude e os povos da floresta literalmente “bateram à porta” e deram o recado: é preciso que nos ouçam. Suas presenças — firmes, organizadas e politicamente conscientes — lembraram ao mundo que o debate climático não pode continuar sendo conduzido sem aqueles que há séculos vivem em equilíbrio com a floresta.

O gesto foi mais do que simbólico. Foi uma convocação.

Uma advertência.

Um alerta global.

Há algo mais poderoso, mais coerente e mais urgente do que os verdadeiros guardiões da Amazônia exigindo serem ouvidos em um evento que discute o futuro do planeta?

É difícil imaginar.

A participação dessas populações evidencia que a crise climática não é uma abstração científica nem um gráfico projetado em telões internacionais. É uma realidade vivida diariamente em territórios onde o desmatamento, o avanço predatório e a ausência de políticas públicas têm impactos diretos sobre vidas humanas, culturas, rios e florestas inteiras. A juventude amazônica, especialmente, tem se destacado como ponte entre tradição e futuro, reivindicando espaço com a legitimidade de quem herda tanto os saberes quanto os desafios.

A resistência inicial de setores que criticaram a escolha de Belém como sede da COP revelou um Brasil que ainda marginaliza a região Norte, desconhece sua riqueza cultural e subestima sua relevância estratégica. Mas a conferência, ao longo dos dias, tratou de desmentir esse olhar estreito.

Belém mostrou capacidade organizacional, vitalidade cultural e, acima de tudo, protagonismo popular. Mostrou também que políticas públicas voltadas para o fortalecimento da identidade local podem gerar desenvolvimento econômico, inclusão social e projeção internacional.

A lição que permanece é inequívoca: não há solução climática sem a Amazônia — e não há Amazônia sem seus povos.

Ouvir essas vozes não é gentileza. É uma necessidade histórica.

Belém lembrou ao Brasil — e ao mundo — que a floresta fala.

E que, quando ela bate à porta, é melhor abrir.

Willys Lins é Jornalista

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