O estudo evidencia que parte significativa das atividades das facções na Amazônia envolve crimes ambientais que financiam o narcotráfico. Extração ilegal de madeira, garimpo e pesca predatória estão entre os mecanismos utilizados para lavar capitais e movimentar recursos ilícitos na região. Foto: Polícia Federal

O Pará vive um processo acelerado de expansão das facções criminosas, que transformam cidades inteiras em corredores estratégicos para o tráfico de drogas, o garimpo ilegal e uma série de economias ilícitas. A conclusão é do estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2025, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta quarta-feira (19), que escancara um cenário de domínio territorial, violência extrema e fragilidade do Estado diante da atuação de organizações armadas.

Segundo o levantamento, o Pará assumiu um papel central na logística criminal da Amazônia. A combinação explosiva entre rios navegáveis, longas rodovias, vastas áreas de floresta, regiões de garimpo e localidades sem presença efetiva do poder público abriu portas para a entrada e a consolidação de facções nacionais, como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, além de grupos locais que se articulam para controlar territórios e economias.

O estudo mostra que a Região Metropolitana de Belém se tornou um dos principais pontos de circulação de armas e drogas no Norte do país. A disputa por bairros periféricos alimenta uma rotina de homicídios, desaparecimentos, ameaças, extorsão e imposição de regras próprias sobre comunidades vulneráveis. Jovens são recrutados como soldadores do tráfico, pequenos comerciantes são coagidos a pagar taxas, e moradores vivem sob constante vigilância de grupos que operam como “poder paralelo”.

Garimpo ilegal impulsiona facções no interior

No interior do estado, a expansão das facções se conecta diretamente ao garimpo ilegal. Municípios como Itaituba, Novo Progresso e São Félix do Xingu formam um eixo de alta lucratividade para organizações criminosas, onde o ouro ilegal funciona como moeda de troca para armas, drogas e serviços clandestinos. Os grupos armados cobram taxas de garimpeiros, controlam pistas de pouso clandestinas, organizam a logística de equipamentos pesados e fornecem segurança armada para empreendimentos ilegais que movimentam milhões em dinheiro vivo.

As regiões fluviais também se tornaram áreas críticas. O estudo destaca que localidades do Baixo Tocantins, do Baixo Amazonas e da ilha do Marajó sofrem com pirataria de rios, tráfico de drogas, extorsão e domínio de portos clandestinos. Nessas áreas, o Estado praticamente inexiste, e facções ocupam o vazio institucional oferecendo desde “proteção” até serviços ilegais de transporte, cobrando tributos próprios e impondo controle social.

Conexão entre crime urbano e crime ambiental

Um dos alertas mais contundentes do estudo é a aliança crescente entre facções e redes de desmatamento ilegal. Grupos envolvidos com derrubada de florestas e grilagem de terras, especialmente em municípios como Altamira, Anapu, Pacajá e Uruará, passaram a contratar facções para garantir segurança armada, expulsar populações locais e organizar rotas clandestinas. Em troca, oferecem logística e estrutura territorial para o tráfico de drogas e para o escoamento de armas. Trata-se de um processo de fusão entre o crime ambiental e o crime urbano, que amplia o poder de ambos e dificulta ainda mais a atuação do Estado.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que o Pará está diante de uma reconfiguração profunda da violência. O avanço das facções se combina com a baixa presença estatal, a precariedade das políticas públicas e a ausência de ações contínuas de prevenção. A consequência é o fortalecimento de organizações criminosas que não apenas dominam territórios, mas moldam o cotidiano de milhares de pessoas, impondo medo, regras próprias e uma ordem paralela.

Para os pesquisadores, sem um plano integrado de segurança, políticas sociais robustas e presença permanente do Estado nas áreas mais vulneráveis, o Pará corre o risco de ver consolidado um mapa do crime que atravessa desde os grandes centros urbanos até os rios e florestas mais isolados da Amazônia.

 

Deixe um comentário