Cerca de mil pessoas estão na ocupação que pressiona o governo federal pela revogação do decreto de privatização dos rios amazônicos. Foto: Vitiin Silva/ @vittiin_tupi

Tapajós de Fato – Na manhã desta quinta-feira (19), os povos indígenas que ocupam o porto da Cargill em Santarém, no oeste do Pará, realizaram mais um ação para pressionar pela revogação do decreto 12.600/2025, que privatiza três rios da Amazônia. O ato em defesa do Rio Tapajós ocorreu a um dia de completar um mês de mobilização e incluiu uma barqueata e a ocupação das estruturas de balsas da empresa.

Segundo as lideranças indígenas, o ato é uma resposta às políticas que, segundo elas, ameaçam os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. “Não vamos aceitar nenhum tipo de intimidação por parte do governo. Só vamos sair da Cargill quando o Decreto 12.600 for revogado”, afirmaram durante o ato.Os manifestantes entoavam cânticos nos barcos e aqueles que subiram nas balsas estenderam faixas com palavras de ordem como “Nossos rios não estão à venda”e “O Rio Tapajós não é mercadoria”.

Uma liderança do povo Munduruku discursou às margens do Tapajós, destacando que o ato foi uma mensagem direta ao Presidente Lula. “Hoje nós estamos mobilizados no mundo e aqui na Amazônia dizendo não a essa dragagem, não ao decreto, não a qualquer empreendimento no nosso rio Tapajós. A vida é importante, a floresta é importante, os peixes são importantes. E que hoje as nossas vozes, os nossos encantados, levem essa mensagem até o Lula ‘revoga esse decreto”, declarou

Os manifestantes também criticaram a atuação da Polícia Federal durante a mobilização. Segundo os indígenas, a corporação garantiu a segurança da empresa, mas não assegurou a proteção dos povos e do rio. “A Polícia Federal protege a Cargill, protege o agro, mas não protege quem protege o rio”, afirmaram.

Apoio fortalece a luta em defesa dos rios

Na segunda-feira (16), representantes das etnias Kayapó e Panará, vindas da região do Alto Xingu, no Mato Grosso, e do Pará, chegaram ao acampamento em Santarém. Na última sexta-feira (13), indígenas Munduruku do Alto Tapajós também se somaram ao movimento, que já conta com cerca de 1.200 pessoas.

A chegada dos povos do Xingu reforça o alerta de que a privatização dos rios é uma ameaça que atinge a todos. No Mato Grosso, a preocupação é com a expansão da soja sobre os territórios indígenas – especialmente após o esvaziamento recente da Moratória da Soja. Já os Panará trazem na memória o processo de contato e remoção associado à abertura da BR- 163, a Rodovia Cuiabá–Santarém, que resultou na morte de 66% da população original, segundo a Comissão Nacional da Verdade.

“Não estamos aqui só pelo Tapajós, mas contra a privatização dos rios da Amazônia. A soja que avança no entorno do Capoto-Jarina é empurrada pela BR-163 e desce o Tapajós. Se o governo privatiza esses rios, acelera a mesma engrenagem que pressiona nossos territórios. Por isso, viemos somar forças com o Tapajós”, disse Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.

Movimentos sociais e indígenas das outras bacias atingidas pelo Decreto 12.600/2025, também articulam novas mobilizações nos próximos dias. O protesto, liderado por povos do Tapajós, quer a revogação do decreto, que, segundo eles, além de transformar os rios em hidrovias, libera a chamada “manutenção da navegabilidade”, que implica na realização de dragagens e outras intervenções que aceleram o escoamento de commodities, sem considerar inúmeros impactos socioambientais.

No centro do impasse está o corredor logístico Arco Norte, que depende da Ferrogrão (EF-170), projetada para ligar Sinop (MT) a Miritituba, no município de Itaituba (PA), ampliando a capacidade de transporte da produção do Centro-Oeste aos portos do Arco Norte, entre eles o porto da Cargill – atualmente ocupado.

Organizações socioambientais e estudos também alertam que transformar os principais rios da Amazônia em hidrovias, visando aumentar o lucro do agronegócio, tem um custo elevado para os territórios e populações tradicionais, a biodiversidade e o clima. Entre os impactos, estão a pressão sobre as comunidades, quilombos e aldeias, aumento da especulação e da grilagem de terras, avanço da soja sobre a Amazônia, contaminação dos corpos hídricos, mudança na dinâmica dos fluxos de água e a escalada da violência nas ‘rotas’ da soja.

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