Com aumento de 76% nas ocorrências em um ano, o Pará se tornou o estado com maior crescimento da violência de gênero entre os monitorados pela Rede de Observatórios. Foto: Indiciado por tentativa de feminicídio é preso, em Nova Timboteua. Divulgação PC/PA
O Pará apresentou o maior crescimento percentual de violência contra mulheres entre nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Segundo o relatório “Elas Vivem: a urgência da vida”, divulgado em 2026, o número de vítimas no estado aumentou 76% em um ano, evidenciando o agravamento da violência de gênero no território paraense.
“Essa estratégia permite contornar limitações conhecidas das estatísticas estatais, como a subnotificação, as inconsistências classificatórias e a defasagem temporal. Por outro lado, os dados também passam a depender dos filtros editoriais, da cobertura desigual entre regiões e da própria estrutura e hierarquia do campo midiático”, explica a professora Flávia Melo, consultora do projeto Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).
O levantamento, que monitora casos divulgados pela imprensa e redes sociais, também aponta um aumento de 25,4% nas mortes de mulheres, somando feminicídios e homicídios. Ao todo, o Pará registrou 138 mortes de mulheres em 2025. Entre os estados analisados – Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo – o Pará aparece como o terceiro com maior número total de casos, atrás apenas de São Paulo e Amazonas.
“A região Norte afirma-se, assim, como um dos espaços mais agudos dessa crise de segurança dirigida às mulheres. Amazonas e Pará despontam como epicentros desse crescimento, com aumentos de 69,4% e 76,0%, respectivamente. (…) No Pará, por sua vez, a violência é marcada por um índice elevado de feminicídios consumados (73 registros) e tentados (299 registros)”, diz trecho do relatório.
Violência ocorre principalmente dentro de relações íntimas
O relatório indica que a maioria das agressões ocorre dentro de relações pessoais e familiares. No Pará, 74,3% dos agressores tinham algum tipo de proximidade com as vítimas, e 46,3% eram parceiros ou ex-parceiros, reforçando o padrão de violência doméstica, em que grande parte dos crimes contra mulheres ocorre no ambiente doméstico ou em relações afetivas, muitas vezes motivados por ciúmes, conflitos ou término de relacionamento.
O relatório também destaca o crescimento da violência sexual no estado. Em 2025, o Pará registrou 123 casos de violência sexual, sendo que 62,8% das vítimas tinham entre 0 e 17 anos. O aumento de registros desse tipo de crime no estado foi de 167,4% em relação ao ano anterior, segundo a Rede de Observatórios. Um dado alarmante que expõe a vulnerabilidade de crianças e adolescentes diante da violência sexual.
Interior e áreas de mineração concentram casos
O estudo aponta que a violência contra mulheres no Pará também se conecta a dinâmicas territoriais específicas. Cidades do sudeste do estado aparecem entre as que concentram mais ocorrências.
Entre os municípios citados no relatório, Marabá (67 casos) e Parauapebas (66 casos) lideram os registros. Essas regiões estão associadas à expansão de atividades como mineração e garimpo ilegal.
Segundo análise de Taiana Amanda Fonseca dos Passos no relatório, “o avanço da mineração clandestina não traz apenas degradação ambiental, vem acompanhado de exploração sexual e tráfico humano. O território violentado reproduz a violência nos corpos femininos”.
Falta de proteção institucional
Outro dado alarmante revelado pela pesquisa é a fragilidade das medidas de proteção. No Pará, 96,6% das vítimas não possuíam medidas protetivas, mecanismo previsto na Lei Maria da Penha para proteger mulheres em situação de risco.
A ausência dessas medidas pode refletir uma combinação de fatores, como medo de denunciar, dependência econômica, dificuldades de acesso à rede de atendimento ou descrença no sistema de justiça. Para os pesquisadores, os números mostram que a violência contra mulheres é parte de uma estrutura social que atravessa relações afetivas, territórios e instituições.
O relatório destaca que o crescimento dos registros na Amazônia, especialmente no Pará e no Amazonas, revela tanto a gravidade da violência quanto a ampliação da capacidade de monitoramento desses crimes pela sociedade civil. Segundo as autoras, produzir dados sobre violência de gênero é também uma forma de pressionar o Estado a implementar políticas públicas capazes de proteger mulheres e meninas.








