Resolução da ONU reconhece que a escravização de 15 milhões de seres humanos e o tráfico transatlântico foram “os mais graves crimes contra a humanidade”. (Imagem: Escravizados contra os colonizadores, representados em ilustração do século XVIII)
Por Aldenor Junior
I
No mar da história, desde os primeiríssimos começos, a violência foi parteira. Lei da selva, regra primordial da sobrevivência. Há, porém, uma abissal diferença entre ferir e matar para sobreviver e fazer o mesmo para sobrepujar, desterrar, esmagar pelo simples fato de ser o caminho mais curto que conduz à opulência, esse paraíso terreno que sempre esteve restrito a um punhado de privilegiados.
O bicho-homem é o único que mata por maldade. Nenhum outro animal, pouco importando a classe ou gênero, premedita fazer o mal e se beneficiar do sofrimento alheio.
Nessa lógica perversa, ninguém duvide que a escravização do semelhante deva ocupar o espaço mais alto do podium, pouco importando se estamos em uma arena romana ou em um moderno centro urbano, onde pessoas são obrigadas a curvar o dorso diante de uma todo-poderosa plataforma de dados que a tudo domina, neoescravos da UBER e do IFood.
II
A ONU, no ápice de seu enfraquecimento nestes tempos turvos, corajosamente ergueu a fronte diante de uma chaga aberta na história mundial. Por 123 votos a favor e apenas três infames votos contrários (dos párias EUA, Israel e, vejam só, Argentina) e a abstenção constrangedora da Comunidade Europeia, foi aprovada uma resolução caracterizando a escravização de cerca de 15 milhões de seres humanos durante os séculos do tráfico transatlântico como o crime maus grave da humanidade.
III
Perde o foco quem imagina que isso é tratar do passado, legislar sobre temas soterrados pela poeira de séculos. A escravização e oconsequente holocausto que ocorreu entre os séculos XV e XIX não são peças de museu. Suas consequências estão aí para quem tiver coragem de enxergar.
A reparação deveria ter sido feia há tempos. Por dever moral. Por exigência incontornável de um mundo que se pretenda civilizado e humano. É isso que levou a Europa a se esconder, pois teme ter de reparar seus muitos crimes. É isso que alinhou os Estados Unidos e seus satélites num posicionamento da mais absoluta falta de decoro.
IV
O Brasil, como território e como nação, foi talhado pela faca amolada do racismo e da escravização de indígenas e africanos. Impossível entender o presente sem identificar essas raízes que nos conectam diretamente a um passado colonialista e escravocrata.
O que assistimos hoje, portanto, são ecos dos navios tumbeiros a balançar nas águas do Atlântico, na mesma medida em que os orgulhosos 1000 povos que aqui habitavam desde tempos imemoriais nos obrigam a testemunhar um genocídio que se perenizou como estratégia de apagamento e aniquilação física e espiritual.
V
Se o tempo, senhor de todos os destinos, abrisse uma janela, por menor que fosse, quais as imagens que nos chegariam, imoladas em fogo, fé e – não raro, desespero?
1444
Registro do primeiro leilão de africanos escravizados em Portugal, diante do infante dom Henrique na vila de Lagos, Algarve.
1455
Pela bula Romanus Pontifex, o papa Nicolau V autoriza os portugueses a escravizar os infiéis entre o Marrocos e a Índia.
1500
Em 22 de abril, Pedro Álvares Cabral chega à Bahia. O total de escravos comprados ou capturados na África pelos portugueses chega a 150 mil. No Império Africano de Bornu, um cavalo árabe vale entre quinze e vinte escravos.
1501
Início oficial do tráfico de africanos para os domínios espanhóis nas Américas.
1660
Criada em Londres a Royal African Company (RAC), que teria o monopólio do tráfico de escravos na Inglaterra.
1695
Depois de quase um século de resistência, o Quilombo dos Palmares é destruído em Alagoas. A cabeça degolada de Zumbi dos Palmares é exibida num poste no Recife.
1836
Na província do Pará, em plena Revolução Cabana: José, Preto. Escravo de Catarina de tal. Foi preso no Marajó, pela expedição. Andava em companhia do Piroca-cana, armado e municiado, e foi preso com as armas. Foi para bordo em 15 de setembro de 1836. Morreu na Defensora em 19 de setembro de 1836.
1980/2026
Desde 1974 até 1986, a multinacional alemã Volkswagen manteve trabalhadores em condições análogas a de escravos em sua gigantesca fazenda Vale do Rio Cristalino, no Sul do Pará. Mais de meio século depois, a Justiça do Trabalho em decisão histórica condenou a empresa a pagar R$165 milhões por danos morais coletivos.
2025
Massacre da Penha, Rio de Janeiro: a Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch afirmou que a polícia do Rio de Janeiro cometeu falhas “cruciais” na investigação de 121 mortes ocorridas durante a Operação Contenção, em 28 de outubro. Em nota pública, a organização relacionou estas falhas a um “desinteresse proposital”, por envolverem população de maioria negra e de baixa renda.
VI
O epílogo dessa longa e tortuosa história é uma página aberta. Serão seres humanos a escrevê-la. E estarão numa encruzilhada, marcada por uma única e crucial escolha: civilização ou barbárie.
NR: Excertos incluídos neste texto: Laurentino Gomes, Escravidão, Volume I , Globo, 2019. Lúcio Flávio Pinto, Cabanagem, o massacre, edição do autor, 2020.
Aldenor Junior é jornalista.








