(uma releitura de O Mito da Caverna, na era digital) – Foto: divulgação

por Elias Araújo

Ao fundo não há mais uma parede, mas telas, bilhões de telas e, olhando para elas, quase sem piscar, crianças, jovens, adultos, idosos, mulheres e homens de todas as classes mantêm-se presos à visão das imagens, de símbolos, de mensagens que lhes são apresentados ininterruptamente.

Não estão mais presos por cadeias físicas das eras do bronze ou do ferro que os mantenham sentados e sem poderem virar as cabeças. Pelo contrário, fisicamente parecem livres, mas os grilhões que mantêm a atenção presa nas telas são de outra natureza. Algoritmos elaborados por programadores com o apoio de psicólogos, sociólogos, neurocientistas e outros profissionais especialistas em comportamento humano garantem que cada ser humano em frente a uma tela tenha exatamente o que deseja ver, ouvir, sentir, querer e consumir.

Da criança que é entretida por desenhos animados, aos jovens em plataformas de jogos e interação social, aos homens e mulheres, adultos e idosos que interagem em redes sociais, recebendo, gerando, difundindo e comentando informações, todos e todas são recompensados.

De um lado, a recompensa vem em forma de estímulos que provocam doses maciças dos neurotransmissores e hormônios conhecidos como o “quarteto da felicidade”: a dopamina, a endorfina, a serotonina e a ocitocina garantem o prazer, o relaxamento, o bem-estar e a satisfação pela conexão emocional.

De outro lado, a recompensa também vem com estímulos à produção de doses ainda maiores de neurotransmissores e hormônios que atuam diretamente no sistema límbico, num quarteto químico conhecido como “coquetel do medo, da raiva, do estresse e da hostilidade”: epinefrina, noradrenalina, cortisol e glutamato.

Em todos os casos, os desejos, prazeres, satisfações, medos, raivas, estresses e agressividade são estimulados em escala crescente, até gerar a dependência química pelos estímulos informacionais e pela ação viciante dos neurotransmissores e hormônios a eles associados, até um ponto em que a virtualidade das telas substitui a vida fora delas, em todos os aspectos, da sociabilidade ao lazer, da educação à informação, do acesso à cultura, ao lazer e entretenimento, da terapia à ação política.

Quem pelos algoritmos conhece os desejos, prazeres, medos, ódios e preconceitos de cada pessoa e grupo social tem sobre eles domínio. E, pela primeira vez na história humana, o tempo se torna infinito, controlado e captado por um olhar na tela, por um simples toque e pela escolha de um hieróglifo simplificado, fora do sol e da lua e das estações. Quem tem o domínio do tempo, a onipresença e onisciência sobre cada indivíduo eleva-se à onipotência de divindade.

Nesse mundo governado pelos overlordes das grandes empresas de tecnologia digital, quem ouse discordar das inteligências artificiais, dos “dados” e produtos que alimentam as bolhas informacionais e de consumo de serviços, produtos e ideias, invocando os fatos e processos da vida fora das telas, só pode ser alguém enlouquecido pelas luzes das ciências, das filosofias que, certamente, o ofuscaram e cegaram e que, portanto, o incapacitaram para a vida social ditada a partir das telas que conformam o fundo da caverna digital.

Elias Araújo Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em  Políticas Públicas.

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