São Paulo registrou mais uma Marcha por Jesus, manifestação da fé evangélica. No palanque, políticos da extrema direita tentaram novamente sequestrar o evento – Foto: reprodução/Poder360

Por Aldenor Júnior*

Eles são milhões.

São crentes e caminham.

A fé é o que os move.

A redenção está no horizonte re-ligado ao sagrado.

Mas, esperem, entre a multidão de crentes existem os mercadores da esperança alheia.
São agentes imobiliários de lotes lunares, vendem e não entregam.

São senhores bem-vestidos, ostentam adereços de grife e no coração – acaso ainda possuam – carregam máquinas registradoras a metralhar cifras milionárias ou bilionárias, conforme crescem e se multiplicam suas mega igrejas corporativas.

Eles são milhões.

São crentes e caminham.

Há anjos entre eles. E são uma multidão (eles ou elas, como há de ser nas esferas angelicais).

Têm em comum trazer no peito o sonho de uma vida melhor.

Ao caminhar, buscam saídas para a vida que os oprimem.

Atenção: mas há demônios agitando falsos milagres.

Esses seres abjetos estão acima da multidão, povoando o mais elevado nível do palanque montado para abduzir os fiéis em êxtase.

Esses seres há tempos perderam qualquer noção de limites morais.

São o que são: entes de uma política subterrânea e tóxica movida a ódio e ganância.

O momento deveria ser de louvor, mas falam abertamente em eleições e pregam a “guerra espiritual” a fim de “expulsar o mal do governo do Brasil”. Quando? A resposta é direta: este ano (em referencia óbvia às eleições de outubro).

Caem suas máscaras obscenas e o cheiro de enxofre toma conta da avenida lotada pelos fiéis e sua absurda e pouco explicada ingenuidade.

A fé move a multidão. Ela avança e continua perseguindo uma saída para se sentir parte de um mundo hostil e cada vez menos inexplicável.

No meio do caminho, porém, ecoa o discurso política dos próceres da extrema direita pronto para envenenar o ambiente. Lançam mais uma carta viciada sobre o pano verde de uma disputa onde o vale-tudo está apenas no início.

Haverá saída para a crise brasileira simplesmente tangenciando o que se chama de questão evangélica?

A sociedade civil, atravessada por tantas contradições e diversidades, mas pulsante em sua disposição de resistir, encontrará a fórmula para desativar a mina explosiva de um regime teocrático que a espreita?

O futuro, grávido pelos desafios do presente, está lançado. Não há tempo a perder.

*Aldenor Júnior é jornalista

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