Clive James – Foto: divulgação
Por Edmilson Brito Rodrigues
Clive James, intelectual multifacetado marcado por um forte bom humor, ao perceber o aproximar de sua morte disse-nos que a poesia é dona da palavra e que o humorismo tem hora. O jornalista Marcelo Coelho (2019) escreveu bela homenagem a esse escritor, crítico de arte, poeta e jornalista australiano, falecido aos 80 anos em novembro desse ano, classificando-o como “gênio da comparação exata e destrutiva”, com base em “Humorismo e poesia, inveja e Gratidão” desse imortal.
Seguem seus versos de “Plátano Japonês”, assim traduzido por Coelho.
“Tua morte, bem perto agora, será leve/Não há dor em dissolução tão lenta/O respiro mais breve/Incomoda um pouco; a vida, sim, se ausenta/Mas ficam a vista e o pensamento:/Mais intensos, até. Não tinhas visto ainda/Toda a beleza e a doçura da chuva fina/Que cai sobre as folhas pequeninas/Impregna os muros de tijolo do quintal/ Como no salão espelhado de um palácio real/Com mais esplendor quando a luz termina”.
Devemos nos perguntar: por que, quando a vida definha, coisas tão belas e doces, como as chuvas, que em Belém caem dia sim e outro dia, também, tornam-se objeto de amor, alegria e nostalgia? Por que deixar para reconhecer a beleza e a doçura de presentes da natureza somente quando a luz da vida quase termina? Quando ainda se tem ou se julga ter muito tempo para usufruir da vida, há quem que, com razão, queiram esquecer as chuvas que avassalaram suas casas, seus poucos pertences, com sua ira tempestuosa e por não conseguirem perceber que chuvas podem ser lágrimas a gritar por socorro, por serem vítimas de uma racionalidade cegada pelo lucro às necessidades da natureza. Há os que as desprezam mesmo tendo suas terras por elas fertilizadas. Sem dúvida, uma sociedade movida pela velocidade tirânica do dinheiro e pelo crescimento ao infinito da produtividade gera a psicoesfera de medo, ruídos e inquietudes, tornando possível a constituição da tecnoesfera capitalista e a eficácia do processo de apropriação da mais-valia universal. Essa dinâmica socioespacial naturaliza e faz crescer o sentimento de culpa nos indivíduos que não se adaptem à aceleração contemporânea, talvez por reivindicarem, mesmo que de forma inconsciente, para a dignidade do trabalho, o direito ao perfume das flores, o frescor das gotas, a voz silenciosa dos rios e as marés do céu em nossas almas.
Segue Clive:
“A cintilação ilumina o ar/Não termina/Sempre que houver chuva estará presente/Além de mim e do meu tempo. Com minha parte me contento/O plátano, que minha filha escolheu, ainda é novo/Chegando o outono, suas folhas serão de fogo/O que me cabe/É viver até esse momento/Que então a partida acabe/Para mim, não haverá nenhuma diferença:/Abrindo para banhar meus olhos, de par em par/As janelas deixarão que entre/Uma inundação de cores, sem findar/Enquanto morre a minha mente/Incinerada pela visão de um mundo que reluziu/Com tanto brilho enfim, e então partiu”.
Então, é impositivo que, ao pensarmos o projeto de uma sociedade mais humana, consideremos a esperança e não o medo que nos isola e deprime; o silêncio, que nos permita ouvir o que os ventos, ao anunciarem as chuvas, querem nos dizer; a lentidão consciente e não a aceleração do “pensamento único” voltada exclusivamente ao lucro, que apenas a uma minoria favorece tornando o mundo mais desigual e infeliz, e a quietude, antídoto aos sofrimentos do corpo e da alma, tão presentes em forma de depressão, ansiedade e os desequilíbrios que elas produzem.
Então, para concluirmos esta reflexão inspirada em Clive James, leiamos outro grande poeta, Benilton Cruz (2012):
Em Defesa da Ternura
É fácil desenhar o som/ Escrevo as letras uma por uma./ É fácil fazer voar o som./ Eu canto e as palavras voam/ Para pousar no teu coração/ Que espreita esta loucura.
Ainda Benilton Cruz:
Lições de Vida
A razão adverte/ O coração perverte/ A natureza forma/ A sociedade deforma/ O amor cria/ A paixão desafia.
Edmilson Brito Rodrigues é Profº da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), ex-prefeito de Belém e ex-deputado federal.
COELHO, Marcelo. Clive James – Humorismo e poesia, inveja e Gratidão. In: Ilustrada – Folha de São Paulo. 04.12.2019
CRUZ, Benilton. Em Defesa da Ternura. In: Malta de Poetas Folhas ₰ Ervas – Agenda 2012. Belém: Cromos, 2012.








