Foto: Ton Molina /Agência Senado
Por Elias Araújo
Fazer previsões é sempre um exercício de alto risco, pois, além de os processos históricos poderem ser afetados por eventos fortuitos, há sempre a possibilidade de que se deixe de considerar sujeitos e fatores que possam alterar significativamente o curso dos acontecimentos, com desfechos muito diferentes dos previstos mesmo com o número variável de hipóteses.
Feita essa ressalva, me arriscarei a opinar sobre os possíveis desdobramentos das revelações da família de milicianos e as organizações criminosas em torno de Vorcaro e do banco Master, e o impacto dessas revelações sobre o processo eleitoral.
Para começar, estabelecerei as constantes do contexto das eleições:
1. O antipetismo em nada será afetado pelas revelações e quaisquer outras denúncias que venham a ser feitas;
2. Como parte da primeira constante, não haverá qualquer abalo na opção de voto dos setores do talibã religioso e daqueles ouros setores da extrema-direita que podem ser denominados como “cloroquina-ypê”;
3. A posição das oligarquias financeiras, do agro latifundiário exportador e de sua porta-voz, a mídia hereditária (Globo, Folha, Estadão e Veja), financiando e apoiando qualquer candidatos anti Lula, e para a garantia da eleição de candidatos de direita e extrema-direita à Câmara de Deputados e ao Senado Federal.
Estabelecidas as constantes, indico as seguintes premissas:
a) Para as elites das classes dominantes (incluindo seus representantes no alto funcionalismo público, no judiciário, nas forças armadas e na mídia), a eleição de políticos corruptos, de vida dupla, hipócritas e venais, qualquer que seja o viés político-ideológico, é sempre preferível à eleição de políticos honestos e moralmente íntegros, com relação orgânicas de classe. A razão para isto não é moral, mas pragmática: os políticos corruptos e de vida dupla são vulneráveis às pressões e achaques que fazem parte do modus operandi das classes dominantes e de seus representantes.
b) Às questões de ordem moral, no contexto da busca pela maximização de lucros ditadas pelo capital financeiro, impõem-se as questões programáticas de minimização do Estado para os mais empobrecidos e vulneráveis (com extinção ou precarização de seus direitos) e a maximização do Estado para os setores oligárquicos dominantes do capitalismo (no caso do Brasil, o financeiro e o agroexportador).
c) As crises do capitalismo, em sua fase imperialista, historicamente, são resolvidas mediante a imposição e regimes autoritários e/ou fascistas que permitem às classes dominantes nacionais concentrarem os poderes do Estado e implementarem medidas para fazerem as classes trabalhadoras pagarem pelas crises e sejam reprimidas ao reagirem às medidas de exceção. Internacionalmente, tais crises são resolvidas mediante guerras de saques e de rearranjo das disputas pela hegemonia.
d) No caso do Brasil, as relações sociais, econômicas, culturais, políticas e ideológicas estão marcadas por mais de três séculos de escravidão, que produziu uma das sociedade mais desiguais e excludentes do mundo. O corolário dessas relações fundadas na escravidão e dessa desigualdade social extrema é a predominância de regimes autoritários, implantados por golpes de estado contra os pouco e precários períodos democráticos, sempre que os privilégios das oligarquias é minimamente ameaçado.
e) o corolário político-ideológico das crises do capitalismo em sua fase imperialista é o supremacismo e, no caso do universo simbólico ocidental, a escatologia judaico-cristã, como respostas às desesperanças das massas empobrecidas e descrentes nas instituições do Estado.
Considerando, pois, essas constantes e premissas, temos, ainda, ao menos os seguintes elementos circunstanciais do contexto brasileiro:
1. Desgaste e enfraquecimento do poder de reação do STF, que foi essencial à defesa da democracia em face da tentativa de golpe de Estado, mas que é vítima das próprias relações perigosas de interesses familiares e de classe que facilitaram os ataques da extrema-direita, apoiada pelas plataformas digitais do imperialismo;
2. Congresso Nacional está sob o domínio da direita e extrema-direita, cujos dirigentes estão diretamente envolvidos com o crime organizado e, em particular com o escândalo do banco Master, que certamente barrarão qualquer investigação, como já o fizeram com caso correlato do roubo dos aposentados do INSS.
3. O governo continuará a deixar a Polícia federal a agir livremente, contudo o tempo, o ritmo e a amplitude das investigações dependem das decisões do ministro responsável pelo caso Master, que foi indicado durante o Milicianato.
As hipóteses mais prováveis, assim, são:
1. Não haverá investigações por parte do Congresso Nacional;
2. O STF encontra-se muito fragilizado e ameaçado para agir a tempo; e o ministro responsável pelo caso, André Mendonça, dificilmente adotará alguma medida conclusiva antes da conclusão do processo eleitoral;
3. Como as elites oligárquicas, em sua maioria, estão dispostas a apoiar qualquer candidato anti-Lula que retome o projeto do golpe de 2016, interrompido pela terceiro mandato de Lula, se a candidatura do miliciano 01 for mantida, continuarão a apoiá-lo; e
4. O Micilianato, dada a sua base eleitoral sólida no movimento bolsonarista, representa tando os interesses das oligarquias nacionais e internacionais do imperialismo e, exatamente por suas caraterísticas de corrupção, amoralidade e incompetência, oferece a candidatura ideal a ser manipulada, pressionada interna e externamente.
Assim, a menos que haja uma grande mobilização popular contra mais esse escândalo do crime organizado, ante a falta de outra candidatura viável por parte do clã miliciano e das elites oligárquicas, a normalização dos absurdos, incluindo dos crimes de corrupção da extrema-direita, indica que a atual candidatura será mantida.
Resta, portanto, manter a mobilização social e as denúncias para manter e ampliar o apoio pela reeleição, com um programa que, em si, também seja um instrumento de denúncia do projeto do golpe de 2016, e que também seja ousado ao ponto de despertar as esperanças dos setores democráticos e progressistas, capaz de motivar o engajamento político e ideológico, em torno das duas questões centrais da luta de classes: a defesa e radicalização da democracia; e a defesa da soberania contra à soberania.
Elias Araújo é Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.






