8 de janeiro de 2023: golpistas autoproclamados patriotas invadiram e vandalizaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF) – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Elias Araújo

A última pesquisa do DataFolha sobre o impacto das revelações sobre as relações mais que perigosas entre a família de gângsters mafiosos e seu braço financeiro, o Master, chefiado por Vorcaro, operador nacional e internacional de fundos de origem ilegal, entre outros dados, constatou que 88% dos bolsonaristas continua firme no apoio ao 01 da família real do crime organizado brasileiro.

Esse fenômeno não é inédito na História recente na qual massas fanatizadas preferem morrer a admitir que estão erradas ou encarar a realidade, depois de terem sido capturadas para um universo no qual suas crenças são completamente resistentes a quaisquer fatos.

O historiador Florian Huber, entre outros, registra como autoridades do partido nazista e simples moradores de cidades alemães como Demmin (Mecklemburgo, Pomerânia Ocidental), Berlim, Leipzig (Saxônia), Hamburgo e outras cidades da Baviera preferiram a saída voluntária da vida a admitir e ter que conviver com a derrota do III Reich pelo Exército Vermelho ou com a notícia da morte do ídolo e “mito”, o Führer, e dos principais líderes.

Medo e dissonância cognitiva levaram e elisão em massa da vida de pessoas no país que foi até o início do século XX a promessa de uma sociedade civilizada, tecnológica e industrialmente desenvolvida e alicerçada nas obras geniais de filósofos, músicos e cientistas.

A fanatização e talibanização (fenômeno mais recente) dada pelo encontro do extremismo político-ideológico com o fanatismo religioso, constituem um universo simbólico e psicológico do qual é impossível resgatar os afetados e adoecidos.

A experiência histórica, assim, demonstra que, aconteça o que acontecer, aqueles que são capazes de adorar cloroquina, defender detergente contaminado ou chamar ETs já não pertencem mais ao mundo do debate democrático, das escolhas racionais baseadas na avaliação de fatos e as opções coletivas sobre os destinos do país.

Essas massas acreditam sinceramente que seu ídolo, mito e líder foi ungido por Deus, e representa a vontade de Deus na terra, e como Deus não pode ser derrotado, é impossível que seu enviado e seus seguidores percam as eleições, numa disputa que não é considerado mero embate político da democracia liberal, mas uma guerra espiritual, onde se enfrentam os defensores do bem e de Deus e, de outro lado o “inimigo”, o diabo e seus seguidores do mal.

Nenhuma política pública, nenhum resultado positivo de indicadores na redução da pobreza, do desemprego ou a melhora da economia (que eles negarão sempre) será capaz de mudar a crença inabalável de que o atual governo e as esquerdas representam o domínio do império do mal. Daí as orações para salvar o Brasil na recente Marcha para Jesus e em outros eventos que, além do “ide” missionário, tem agora uma conotação política.

O problema dessa sublimação (da química) político-ideológica-religiosa é que ela afeta diretamente a capacidade cognitiva-reflexiva do ser humano em relação ao seu ambiente (social, político, material). Essa incapacidade leva a outra: a do diálogo.

Essa incapacidade de cognitiva-reflexiva e de diálogo por sua vez têm consequências em todos os campos onde manifesta-se a plasticidade e a criatividade própria dos seres humanos e sua capacidade ilimitada de imaginação: nas artes, na cultura, na filosofia e, especialmente mas ciências.

Daí o negacionismo e o ataque às manifestações artísticas, culturais, filosóficas, científicas e suas obras, porque sendo por definição impadronizáveis (demasiadamente humanas), são também desafios permanentes aos dogmas, às verdades absolutas.

A ciência, em particular, que tem como um de seus fundamentos ontológicos e epistemológicos a dúvida (um cientista é ser permanentemente insatisfeito, sabendo e mesmo desejando que seus conhecimentos sejam ultrapassados) é vítima preferencial do ataques políticos, sendo as universidades, professores, pesquisadores os alvos de desqualificação, intimidação, criminalização e cortes de recursos nos regimes dominados pela extrema-direita direta.

Ante a ameaça permanente à democracia, à pluralidade de manifestações e expressões artísticas, culturais e religiosas e à produção do conhecimento científico, postas por essas massas fanatizadas e fundamentalizadas, põe-se a questão o que fazer?

E ressalve-se que essa fanatizacão e dissonância cognitiva não afetam apenas os extremista da direita. O Kmer Vermelho e outras organizações que basearam-se na materialismo mecanicista, na “inevitabilidade das “leis da História”, novamente casando política e religião de certezas e verdades absolutas, são exemplos que devem nos por em alerta.

Le bon e Freud, como sabemos, dedicaram-se a questão, do ponto de vista da psicanálise, mas não apontaram solução. E este é, pois, o nosso desafio, porque não se trata de algumas pessoas, mas de milhões.

E o desafio se agiganta ao constatarmos que agora também temos que lutar contra o poder mundial das bigtecs que lucram bilhões fazendo com que seus algoritmos e plataformas estabeleçam a base orgânica da existência desses universos paralelos para onde se autoexilaram dezenas de milhões de pessoas.

Elias Araújo é Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.

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