Foto: Rafael Ribeiro / CBF
Por Glauco Alexander Lima
Caro Carlo,
Antes de qualquer coisa, seja muito bem-vindo ao Brasil.
Você chegou para treinar uma seleção. Mas, se me permite uma ousadia tipicamente brasileira, talvez exista uma missão ainda mais importante: ajudar nossos jogadores a reencontrarem a alma do futebol brasileiro.
Não estou falando de tática. Disso você entende muito mais do que nós.
Estou falando do quadril.
Sim, do quadril.
O futebol moderno ficou forte, veloz, científico, organizado, físico. As linhas defensivas se fecham como muralhas. Todo mundo corre. Todo mundo marca. Todo mundo faz exatamente o que o computador manda.
Mas existe uma coisa que algoritmo nenhum consegue ensinar: a ginga.
Por isso, faço uma sugestão à CBF.
Que tal incluir, todos os dias, quinze ou vinte minutos de cultura brasileira nos treinamentos?
Aulas de samba.
Capoeira.
Chorinho.
Forró pé de serra.
Lundu.
Frevo.
Axé Music.
Carimbó.
Xote.
Xaxado.
Lambada.
Vanerão.
Bugio.
Chamamé.
Milonga.
Reggae do Maranhão.
Tecnobrega de Belém.
Porque antes de formar um ponta-direita, é preciso destravar a cintura.
Antes de ensinar o passe vertical, é preciso soltar o quadril.
Antes do GPS medir quilômetros percorridos, é preciso reaprender a dançar.
Capoeira todos os dias.
Não para formar lutadores.
Mas para ensinar equilíbrio, improviso, malícia, tempo, elasticidade e coragem.
Coloque os jogadores para ouvir aquela velha canção que diz que o baiano tem Deus no coração e o diabo no quadril.
Talvez esteja aí um segredo do nosso futebol.
Precisamos manter a fé em Deus. Nas entidades vindas da Europa ou da África. Mas temo que recuperar esse “diabo no quadril”.
Mostre também vídeos do povo brasileiro.
Da moça equilibrando duas sacolas, uma criança e ainda entrando no ônibus lotado às cinco da manhã.
Do trabalhador que atravessa a multidão na estação de trem.
Do ambulante que dança enquanto vende.
Ali existe um curso intensivo de drible.
O brasileiro sempre aprendeu a sobreviver jogando de cintura.
Nossos meninos vão embora cedo demais para a Europa.
Aprendem posicionamento.
Aprendem intensidade.
Aprendem pressão.
Mas às vezes esquecem Garrincha.
Esquecem Rivellino.
Esquecem Denílson Show.
Esquecem que o drible continua sendo a única arma capaz de desmontar uma defesa inteira.
O futebol brasileiro nunca foi apenas um esporte.
Sempre foi um jeito de dançar.
De sorrir.
De improvisar.
De brincar.
De transformar dificuldade em espetáculo.
Carlo, não queremos menos Europa.
Queremos mais Brasil.
Mais roda de samba.
Mais sanfona.
Mais berimbau.
Mais zabumba.
Mais pandeiro.
Mais tambor.
Mais alegria no quadril.
Mais felicidade nos pés.
E, quem sabe, menos tempo olhando estatísticas e mais tempo olhando uma roda de capoeira, um baile de tecnobrega em Belém, um forró em Caruaru, um samba no Rio, um carimbó no Pará, um reggae em São Luís ou um frevo em Recife.
O Brasil sempre foi campeão antes mesmo de entrar em campo.
Porque jogava sorrindo.
Talvez esteja na hora de ensinar nossos craques a reaprender aquilo que nenhuma universidade do futebol consegue explicar:
A arte de brincar com a bola.
Com enorme carinho, admiração e um sorriso no rosto,
Um brasileiro apaixonado pelo futebol.
Glauco Alexander Lima é publicitário.








