Debate sobre o Cine Olympia passa da restauração do prédio para o futuro de sua gestão, programação e acesso público. Foto: Reprodução Instituto Pedra
A obra de requalificação do Cinema Olympia, em Belém, aproxima-se da reta final em meio a um debate que vai além da recuperação física do prédio. Mais antiga sala de cinema em funcionamento no país, inaugurada em 24 de abril de 1912, a recuperação do Olympia foi concebida e iniciada em 2024 na gestão do ex-prefeito Edmilson Rodrigues, e carrega uma história de resistência, pertencimento e mobilização social. Em 2006, após pressão da classe artística e da população diante do risco de encerramento das atividades, o espaço foi assumido pela Prefeitura de Belém.
Em entrevista por escrito, a jornalista, documentarista, e mestranda no PPG Artes/UFPA, Luciana Medeiros, que apresentou recentemente em um seminário no Rio de Janeiro um artigo sobre requalificação patrimonial e governança cultural a partir do caso do Cine Olympia, defende que a restauração do prédio precisa ser acompanhada de um plano público de gestão, com orçamento e equipe especializada.
Para ela, qualquer parceria ou modelo complementar de sustentabilidade deve preservar a missão pública do cinema, ainda mais porque a requalificação foi viabilizada com quase R$ 11 milhões captados por meio da Lei Rouanet. Luciana defende a criação de instrumentos legais que garantam orçamento próprio, equipe especializada, planejamento permanente e uma instância consultiva com participação da sociedade civil, universidades, realizadores do audiovisual, pesquisadores, gestores e poder público. Confira.
1. Você apresentou um artigo sobre requalificação patrimonial e governança cultural a partir do caso do Cine Olympia. Qual é o ponto central da sua pesquisa?
O meu artigo partiu de uma inquietação simples: restaurar um patrimônio cultural é suficiente para garantir sua permanência como equipamento público vivo?

E para responder a essa questão, tomei o Cine Olympia como estudo de caso, analisando seu histórico desde a Belle Époque até sua trajetória recente, passando por diversas fases como a crise dos cinemas de rua nos anos 1990, os processos para a requalificação em curso e os desafios relacionados à gestão e à sustentabilidade institucional do cinema, que desde 2007 é municipalizado e reconhecido por lei como patrimônio cultural.
E me ancorei em autores como Françoise Choay, buscando compreender o patrimônio para além da dimensão arquitetônica; em Lia Calabre e Albino Rubim, que discutem a institucionalização das políticas culturais; e Néstor García Canclini, que aborda os equipamentos culturais como espaços de cidadania, formação de público e produção de memória. Foi fundamental o livro Cinema Olympia: 100 Anos da História Social de Belém, de Pedro Veriano e Luzia Miranda.
A pesquisa também me levou a ouvir profissionais que participaram diretamente da gestão do Olympia, como Nazaré Moraes e Marco Antônio Moreira, buscando compreender como a experiência acumulada ao longo dos anos pode contribuir para pensar o futuro do cinema. Também entrevistei a Beth Almeida, arquiteta responsável pela obra de requalificação, do Instituto Pedra, e busquei dialogar com a atual, e recentemente criada, secretaria municipal de cultura que, com a extinção da Fumbel, deve ser a responsável pelo cinema.
Apresentei esse estudo, semana passada, no Seminário de Políticas Públicas Culturais da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, pelo PPGArtes da UFPa, onde atualmente curso mestrado, e foi interessante a reação dos pesquisadores de outros estados que ficaram impressionados ao conhecer a história do Olympia. Muitos disseram que saíram dali com vontade de visitar Belém para conhecer o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento, agora sabedores de sua história e com o prédio plenamente requalificado, um marco relevante. E também refletiram comigo sobre a urgência de seu funcionamento pleno.
Isso de certa forma comprova que o Olympia não é importante apenas para Belém. Ele é uma referência nacional e merece uma política de gestão à altura de sua história.
O Brasil tem inúmeros exemplos de patrimônios culturais restaurados com recursos públicos que, por falta de planejamento, gestão ou orçamento permanente, acabam subutilizados ou até voltam a enfrentar processos de abandono.
No caso do Cine Olympia, a requalificação física é fundamental e precisa ser celebrada. Mas a pesquisa procura mostrar também que a preservação do patrimônio não começa e nem se encerra na restauração do prédio.
As pessoas têm uma relação afetiva muito forte com esse cinema. O Olympia não é apenas um prédio histórico, ele guarda memórias, sempre foi um lugar de encontro e convivência.
2. Você mencionou que perguntou à atual secretária de Cultura, Raphaela Segadilha, sobre o plano de gestão para o Olympia e não obteve resposta. Qual deveria ser o próximo passo da Prefeitura de Belém?
O próximo passo vejo que é bastante urgente e passa pela construção de um plano de gestão. E isso não precisa começar do zero. O próprio Olympia acumulou experiências muito importantes entre 2007 e 2019, com projetos educativos, parcerias com escolas, universidades, festivais e ações voltadas a populações ribeirinhas e grupos em situação de vulnerabilidade.
Por isso, o debate agora precisa ser menos sobre a obra e mais sobre o seu futuro funcionamento e o acesso.
Além de ter procurado a secretária para a entrevista enquanto escrevia o artigo, em março, mas só recebi um email com texto genérico dizendo estavam sendo feitas reuniões a respeito.
E também estive em abril, numa visita às obras, por ocasião dos 114 anos do Olympia, em que ela recebeu jornalistas. Foram apresentados aspectos importantes da restauração arquitetônica, mas nada dito ou respondido sobre qual modelo de gestão estava sendo pensado, qual seria a equipe responsável, ou como se daria a programação de abertura do cinema após a entrega da obra, prevista agora para agosto.
3. Caso a gestão Igor Normando opte por entregar o espaço à iniciativa privada, quais riscos isso pode representar para a função pública, social e cultural do cinema?
O risco de uma lógica predominantemente comercial é que a programação passe a ser orientada por critérios de rentabilidade e não pelo compromisso com a democratização do acesso, a formação de público, o cinema brasileiro, as mostras culturais, os festivais e as ações educativas que historicamente marcaram a trajetória do Olympia.
Ao pensar numa gestão pública, isso não significa que não possam existir parcerias ou modelos complementares de sustentabilidade. O próprio projeto prevê espaços como café e bar, que podem ajudar na manutenção do equipamento. Mas é fundamental que qualquer arranjo preserve a missão pública do cinema.
É importante lembrar também que toda a requalificação foi viabilizada com recursos captados por meio da Lei Rouanet, ou seja, recursos de uma política pública de incentivo à cultura, a partir da parceria da Prefeitura de Belém com o Instituto Pedra. São quase 11 milhões de reais vindos pela lei da renúncia fiscal. É legítimo esperar que esse investimento retorne para a sociedade na forma de acesso público, programação cultural e ações de formação.
4. Que tipo de governança cultural seria mais adequada para o Cine Olympia?
A municipalização, em 2007 foi fundamental, assim como a patrimonialização arquitetônica, pela Lei Municipal nº 8.907, de 13 de março de 2012.
Então, acredito que o mais importante é criar mais mecanismos institucionais capazes de proteger o Olympia ao longo das mudanças na política municipal. O desafio não é apenas definir quem administra o cinema hoje, mas garantir sua continuidade daqui a mais 114 anos.
Defendo a criação de instrumentos legais que assegurem orçamento próprio, equipe especializada e planejamento permanente. O Olympia já deveria estar inserido na estrutura administrativa do município, desde 2007, com recursos definidos e responsabilidades estabelecidas.
E aposto muito em uma instância consultiva para definir esse funcionamento e saber seus custos, reunindo gestores e especialistas, representantes do audiovisual, universidade e sociedade civil, além do poder público. Não seria um começo? Paralelamente uma ação de emergência na base de parcerias para que o cinema não fique fechado depois de entregue a obra.
5. Como a sociedade civil deve participar das decisões sobre o futuro do cinema?
A sociedade civil sempre esteve junto e continua sendo o pilar decisivo e deve ser ouvida numa instância consultiva e representativa.
O Olympia é um patrimônio vivo. E a participação social não deve acontecer apenas quando surgem crises. Ela precisa fazer parte da governança do equipamento. Escutar universidades, cineclubes, produtores culturais, pesquisadores e o público frequentador pode contribuir para fortalecer o cinema e aproximá-lo ainda mais da vida cultural da cidade.








